sábado, 23 de março de 2013

scones (doce e natas frescas)


Há dias em que as direcções se convergem em escolha adicta, escolha nenhuma, portanto. Levanto-me quando o sol nasce, abro as janelas e respiro a madrugada discreta que pouco me fala, como se me quisesse crente na normalidade das horas que correrão daí em diante, agora saio, depois trabalho, depois almoço e por aí afora, uma rotina acostumada, nada de novo, tudo igual. Nem chega a meio dia quando me acostumo à ideia de que me vais fazer uma falta medonha, de que a madrugada enganadora me sacaneou o espírito, de que os suspiros desafogados que respiro pouco ou nada têm a ver com a primavera e com os pólens que voam no ar que engulo, mais do que o habitual. Pressinto-te igual, na grandeza que forma a vontade análoga em dois corpos distintos, incitas-me a firmeza do ânimo por si só impositor, quanto mais nascido em dobro. Dizes-me isto e aquilo, respondo que sim senhor, encurtas-me a distância que me separa do desgoverno, olho pela janela, espreito o sol de primavera que me iludiu a aurora e apetece-me matá-lo. Poder-me-ia ter preparado, malvado. Falas-me em ler o jornal e imagino-te recostado enquanto me debruço sobre as letras pequenas com os óculos na ponta do nariz, leio-to na perfeição, as notícias de última hora, a crise, o Sócrates, o desemprego, a troika, o raio que parta este País que se afunda sempre, mesmo enquanto lemos, uma palavrinha de cada vez. Fartaste depressa e eu também, meia dúzia de linhas, mandas-me parar com aquilo, não te apetece, o que tu queres mesmo é comer scones numa esplanada de fim de tarde, pode ser à beira rio ou à beira mar, pode ser debaixo do sol que me enganou ou da chuva que nos guiou, pode ser no pináculo da civilização ou no reino do marasmo, desde que os scones tenham doce e natas frescas. Nesta altura do dia já pouco me importa o que como, já não me foco na gula que me dirige o corpo invariavelmente para os chocolates, já concordo com tudo o que me proponhas comer, mas de facto a doçura parece-me muito bem. Sento-me, peço um e tu pedes outro, o doce e as natas frescas misturam-se no prato, na colher, na boca e nos meus delírios precisos que me sabem, quase, a scones com doce e natas frescas numa esplanada que pode ser num sítio qualquer, a uma hora qualquer, num clima qualquer, desde que mos dês na boca e devagar, que o sonho é para aproveitar.     

8 comentários:

  1. Realmente há poucas coisas melhores que scones, doce e natas frescas ;)

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    1. :)) Uma boa receita para o Come Chocolates... Se é que que não consta já...

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  2. Se for de manhã, acompanhados com sumo de laranjas acabadas de espremer; se à tarde, com chá, muito chá preto. No pináculo da civilização, sempre! Sobre o Central Park, por exemplo. Pode ser...? :) Bjo...

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    1. Pode, e pode ser já. De resto, expliquei-me devidamente quanto à minha única exigência...:))

      ( Beijos...)

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    2. Claro que seria na boca e devagar. Esquece a grande metrópole, pode ser no Quénia. O telintar do serviço de chá inglês e o eco dos beijos sobre a savana assustam os leões :)

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    3. Bem me parecia que a civilização não era exigência primordial. Não estou indecisa, não, fico com esta última... :)) Atendendo ao que descreves, julgo que nem é preciso explicar porquê...

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  3. http://3.bp.blogspot.com/-tD4tiqDaSMU/UUY-2-rYBII/AAAAAAAAVDw/gtXroR0rwmg/s1600/Out+of+Africa.jpg

    E esqueçamos as melgas. Até já.

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