quinta-feira, 7 de março de 2013

chocolate

O líquido pingava-lhe da boca doce e espesso enquanto a língua se passeava pelos lábios entreabertos, não fossem perder uma gota. Puro desperdício. Ele olhava-a do canto da sala a esperar que terminasse a caixa que devorava com o corpo esquecido ao mundo. Gosta particularmente quando o corpo dela se esquece ao mundo. Quando se entrega no limbo da pele que a cobre e o mata, para se deixar viver nos gestos, nas frases e nos olhares que lhe saem emaranhados em desejos escondidos, imensos. Ela prolongava-se numa sofreguidão declarada em cada trejeito e engolia os chocolates amargos, trincando as ginjas suculentas que se confundiam com os lábios vermelhos, irrequietos. Puro proveito. A ele, nunca uns chocolates lhe pareceram tão grande tentação, sequer sem prová-los. Jura que os comeria, dia após dia, sem gula mas em pecado. Ela estava distraída, tinha uma caixa de chocolates de licor inteira e só para si. A certa altura levantou os olhos, a caixa estava meia, comeria mais? Ao longe, ele aguardava o sim. Ela sorriu com uma boca quase quieta e voltou a olhar para baixo. Pousou-a no chão, levantou-se e mirou a lua, redonda, belíssima. Para ser perfeita, só lhe faltava chocolate. Não tinha, a lua nunca vem com cobertura de chocolate. Muito embora haja dias em que sabe, terrivelmente, a pecado. 


( O festival do chocolate está aqui, e não há meio de acabar. Das duas uma, ou mato a distância, ou mato a gula, o que constitui a mesmíssima coisa, convenhamos. Isto se o tempo que lhe resta não morrer depressa. Diz que é a dezassete. Benzo-me, mas não sei se resulta. )

2 comentários:

  1. Puro engano: a lua surge sempre envolta de uma leve película de chocolate branco e, à medida que a noite passa, vai-se derretendo com o calor do anseio aquando a luz do quarto se apaga. A lua, como o licor, pinga amor; nunca pecado.

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    1. Pinga amor, sim, e pingos de chocolate branco. Nada a acrescentar à tua explicação. Puro engano, assumidíssimo...

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