quinta-feira, 28 de março de 2013

ponto de pérola

Dizes-me que levas cigarros e um chocolate e eu pergunto para mim mesma o porquê de não me levares a mim no bolso de dentro do casaco, encostada ao teu peito mas do lado de fora, que o lado de dentro é nosso, não é para aqui chamado. Em troca prometo que tentava distrair-te da falta que te faria o doce, as passas de uva, o cacau, a nicotina, os pacotes que fazem barulho a desembrulhar e que nos deixam com uma água ansiosa na boca que espera. Indagas da lua e está cheia, semi tapada com nuvens que a deixam no recato dos olhos que a cortejam ao longe, os olhos dos namorados estão sempre numa atalaia que espia e repassa, ainda que nem possa ser. Dedilhas-me as vontades que dissecas como se fossem as tuas próprias e falas no teu inconsciente recôndito como quem fala na bica acompanhada com um éclair doce a espargir açúcar por todos os lados, incluindo a tua boca, na pastelaria onde as senhoras se sentam para tomar o chá das cinco, cabelos armados, saias travadas, sapatos de meio salto e óculos que compõem as vistas cansadas de quem já viu quase tudo o que há para ver, de casa para o chá, do chá para casa, passagem na praça da esquina, o corriqueiro, o trivial. Não gosto de meios saltos, e isto é só um aparte. Respondo-te de feição e toco-te nas tangentes do id, aquele que consciencializamos desde que Freud o baptizou num momento de lucidez maior e pouco convincente. Não estamos globalmente capacitados para a claridade mas todos gostamos de coisas com nome, fazem mais sentido, por isso quase lhe perdoamos o facto de nos ter descoberto elementos ocultos que deveriam permanecer no anonimato permitido pela pele do corpo, não sempre, muitas vezes. Entro, cumprimento as senhoras com uma vénia delicada, agradeço a cortesia do senhor que amavelmente te indica muito depois de eu te ter visto, aprecio a montra de bolos que se estendem no meu palato como se os trincasse a todos ao mesmo tempo, lambesse os dedos e fechasse os olhos para que só o gosto vingasse, aproximo-me de ti e sento-me a inspirar o ar, ao mesmo tempo que engulo os açúcares que fervilham à tua volta, em ponto de pérola só porque eu quero assim, 108º graus centígrados, perfeito. Mais ou menos como a nossa natureza, minha e tua, em completa transparência adocicada, até porque há dias em que podemos todos os éclairs do mundo. Hoje é um deles.

2 comentários:

  1. As flores mais bonitas precisam de outros cuidados que não de se verem enfiadas numa lapela. Nem sequer se passeiam: cristalizam-se em açúcar pérola.

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  2. Cristalizar em açúcar pérola parece-me tão bem. Vejamos: É doce, transparente, cristalino e delicado. Perfeito, portanto... :)

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