sexta-feira, 14 de junho de 2013

verde turquesa

Estou muito apaixonada, e agora?, pergunta-me em voz de suplício de tântalo, ai menina, paixão não é isso, apetece-me tanto dizer-te. Paixão quando muito são dorzitas pequeninas encostadas nas costelas e umas lágrimas que voam só de vez em quando, levadas por um vento teimoso que gosta do sal delas, às vezes. Ele não telefona, ele não vem, ele só responde por escrito e se estiver para aí voltado, vamos lá nós saber para onde se volta nos restos dos tempos, que são muitos. Volta-se, olhe. Nos restos dos tempos volta-se às outras miúdas de mini saia, sabe bem disso, houve uma vez em que lhe deu um estalito, ela estava ali ao lado direito, mas por que raio olhava ele para o lado esquerdo? Os olhos das pessoas e dos homens têm destas loucuras, dizem eles que inconsequentes. Inconsequentes são os meus choros, mas não os que engulo em forma de pastel de nata com canela, esses, esses é que deveriam sê-lo, insistia. Agora arranjo unhas. O malandro há-de ver que eu ergo a cabeça à vida, mesmo que ele só calque umas teclas aborrecidas nas horas mortas dos afazeres das companhias. Há semanas que não me vem dar um beijo. Há semanas que não há uma palavra de voz, quanto mais. Há outras tantas que o espero pela janelinha da porta pequenina onde só cabe a minha cabeça e por onde nada mais se vê, da casa para fora, da rua para dentro. Desvio uma cortina e espreito hora a hora, lua a lua, era de noite que vinha quase sempre. Por mim, poderia até vir de manhã, desde que viesse. Podia nem me dar um beijo, desde que me tocasse. Podia nem me chegar umas festas pelas pernas acima até às coxas, desde que me olhasse. Caramba, miúda, apetece-me dizer-te outra vez, paixão não é isso. Paixão são sufocos de meia noite ou de meio dia e presenças que fervem na ânsia dos apertos onde quer que sejam sem se ver onde começam ou onde acabam, e se não acabarem cedo melhor. Deixa-te de minguas, anda. Dar mãos e bocas e corpos e ainda corações em doses comedidas porque o lado de lá não quer tanto, é excessivo, só pode ser excessivo. Vou ali ver as cores dos vernizes, posso?, perguntei por fim: sempre gostei de pés enfeitados a verde turquesa. 

6 comentários:

  1. Em Amesterdão lembrei-me de ti, numa loja. Adivinha de quê? :))))

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  2. Muitos enfeites estragam meninas. Por uma boa digestão prefiro quase tudo ao natural...

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    1. :) Um sapato a sério não é enfeite, é essencial. E pode fazer parte de um quadro quase natural...

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