sábado, 11 de outubro de 2014

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De manhã bem cedo encontro o vizinho no patamar da escada. Bem velho, bem zangado, bem documentado. O país que temos vale pouco ou perto de nada. As pessoas que o compõem não têm vergonha, têm umbigo, e à volta dele gira um mundo individual de cada uma delas. Bem feitas as contas e é reparar que existem milhões de mundos diferentes e não existe um único mundo comum. Ergue-me o dedo ao alto e defende a educação. Acena com a cabeça e afirma que a força do trabalho já moveu montanhas, que a dignidade dos valores já edificou casas, que a união da família já salvou vidas inteiras, que a palavra já valeu por um papel. Hoje não sabe onde está, sabe apenas que não pode sair de carro desde ontem, ficou trancado por um outro que resolveu barricar a entrada da garagem. Conversa puxa conversa e afirma-me que certamente será do jovem que urina no muro do prédio pela manhã, uma vergonha. Prossigo caminho e amaino pensamentos. Atravesso o dia e encontro a noite, quente demais para o Outono que nunca mais chega. Apresso-me na chegada e por coincidência encontro o mesmo vizinho, bem velho, um pouco menos zangado. Já tivera ordem de saída, era um carro que avariou o sistema electrónico de sobrevivência. Perante a chuva, em vez de fechar abria os vidros, carecia de ser protegido. Uma desculpa esfarrapada, diz-me, não me convenceu. Já vinha a rir-se, subiu devagar. A menina vem cansada, prossegue. Ideia sua, deixo transparecer. Olhe que eu sou velho mas sei da vida, diz-me antes de entrar à porta. Sigo e penso no que me vendeu de manhã. A força do trabalho, a dignidade dos valores, a união da família, a solidez da palavra. Entro e arrepio-me, subiu-me um frio da espinha, certamente uma ponta de ar. Respirei fundo e deixei-me ficar. 

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