domingo, 13 de fevereiro de 2011

Coreto

No jardim da fonte, os velhos albergam-se da chuva no coreto central. Jogam às cartas ao Domingo. Não um coreto à moda antiga, trabalhado a preceito a madeira e ferro, erguido em seu esplendor, colocado exactamente na altura devida, no sítio certo, para que o som saísse esmerado e afinado. O coreto em questão, é um coreto sem graça, colocado ao nível do chão, fabricado na era moderna, desrespeitando todas as regras que regiam a sua construção, tarefa exigente e de extremo rigor, por ora desleixada, como se os músicos, ou quem quer que possa utilizar tal local, não merecessem a dignidade de outrora, e no nosso país, nem houvessem dessas riquezas, um desperdício, tenho a dizer.
Admiro cantares de outros tempos, por norma acompanhados de adufes, reco-recos ou concertinas, que faziam as moças bailar com gosto, coisa que agora, já nem se usa, usam-se outros hábitos, outras danças. Ainda assim, e numa profunda incursão na cultura tradicional portuguesa, julgo que nem deveríamos desdenhar tais riquezas por demais valiosas, que nos contavam as histórias do campo, das gentes que labutavam de sol a sol, das mulheres que ceifavam, dos homens que colhiam. Passo no coreto e fico irritada, pelo desrespeito incutido ao que mais deveríamos preservar. Não me parece coerente, unir arte moderna, a tradições centenárias. Fico apenas feliz com a serventia. Os velhos, precisam de resguardo para jogar.

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