terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dina

Entra-me de choro estampado no rosto. Não um qualquer choro clandestino, despontado ali naquela hora, por capricho ou atenção, mas um choro sentido, emergido do fundo de si. Bem atentando ao processo, verificamos que o choro lhe escorre de todo o corpo, visível nos olhos, na boca, no nariz que pinga a preceito, e ainda de todo o resto do seu ser, mãos, pernas, barriga, coração. Nem uso ver destes choros assim, embora confesse, já me deparei com alguns, em que o desarme quase me surge em resposta. O choro despoleta-me reacções adversas, sendo que tolero mal o fingido, para me render totalmente ao sofrido, que mescla numa ansiedade molesta, para me dizer que lá dentro daquele ser, existe uma crise sem fim. A blusa que enverga no corpo, parece-me ser dos seus poucos pertences, juntamente com uma camisola interior branca que aperta num saco de plástico junto ao peito. Os óculos grandes e pretos, dão-lhe uma ajuda impertinente para olhar um mundo que nem a quer, uma família que a colocou na rua pelas depressões crónicas e processos demenciais. Fosse eu a ela, e já os teria partido de vez. Calça uns chinelos de flores que pisam um chão molhado à chegada, onde emerge um penso enorme de um dedo amputado, levassem-lhe antes todo o corpo, tal como já lhe levaram a alma, e o sossego eterno seria conseguido, mas nada disso lhe fazem, que a levam aos poucos, pobre de si. O cerco que se lhe faz pede-lhe então que não chore, ignorância a das gentes, que ainda que repletas de bondade, nem bem entendem, que chorar a vida, é o pouco que lhe resta dela.

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