sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Esquecimentos

Não poderia, não quero, nem devo, deixar de falar da velha que morreu em conjunto com um cão, algures num sítio que foi aquele por assim ter de ser, dado que poderia ter sido em qualquer um outro.
Chocam-me inúmeras questões, que muito embora o choque nem seja coisa digna de realce, sentido frequentemente numa distância confortável, de segurança por assim dizer, dado que o arrumamos num ápice porque a nós não pertence, quem tal sentimento despoletou, nem se pode dizer ser aqui o caso, que ela a mim não pertencia, mas pertencem muitos outros, pelo que também poderia pertencer.
Os velhos são esquecidos, que disso não haja dúvida. Já nos deram o que tinham a dar, que à parte de algumas palavras sábias, e uns poucos ensinamentos, mais não fazem do que carecer de nós, de um cuidado efectivo e disponível, dado que o corpo, fiel guardião em tempos, capaz de auto zelo, auto sustento e auto percurso, encontra-se agora definhado, à mercê dos anos que nos transportam a um local estranho, frágil e desprotegido. Fosse a nossa evolução coerente, e caminharíamos para a plenitude, nunca para a precisão. Ou fossemos nós coerentes, e a preocupação devida a quem tanto já nos deu, emergiria, tal como emerge um sentimento de alegria perante um agrado, naturalmente, por assim dizer, sendo essa a ordem das coisas, desenvolvemos reacções adequadas às solicitações, poderemos detectar inúmeros exemplos, no decurso da nossa vida. Porém, em determinadas âmbitos, com determinadas gentes, algo parece falhar, e coerência nem é realidade que exista. No lugar do respeito, devido, por demais devido a quem já cuidou, para agora necessitar de ser cuidado, emerge uma desresponsabilização imprópria de tão injusta.
Não tinha filhos, bem sei. Teria por certo outros familiares ou pessoas perto, que nunca lhe notaram a ausência, que nunca a lembraram, que nunca a protegeram. Quando assim falo, nem me perco em demasiadas atenções, afectos ou outros que tais, perco-me apenas e só no essencial que qualquer ser humano necessita. Depois da morte, surge ainda um abandono post mortem, também ele difícil de entender, pelo tempo de decurso, levando-nos a crer que no mundo, existe gente capaz de se esquecer para sempre. Ou por nove anos, ou assim.

1 comentário:

  1. É realmente extraordinário! Houve ainda quem empreendesse alguns esforços junto das autoridades para lhe entrar em casa, nomeadamente uma vizinha e um sobrinho que chegou a bater às portas do tribunal. Alguém tem de ser chamado à responsabilidade, e refiro-me, por exemplo, aos guardas que sempre recusaram dar ao assunto a importância que tinha.
    No entanto, estou como tu - que raio passou pela cabeça do tal sobrinho e da tal vizinha para se conformarem assim?! É que eu tinha, sem dúvida, arrombado a porta.

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