segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Trocas

Veste um casaco verde esmeralda, que lhe combina com uns olhos que lhe invejo ao infinito. Que os apelidem de traidores, como queriam, que para mim, serão sempre os mais lindos do mundo (expressão forte, esta), até porque, aqui como em tanto sítio, a beleza não necessita de fundir-se com a perfeição. Olha-me de soslaio, porque nem sequer lhe ligo às dores que a afligem. O braço que inchou, a perna que torceu, os caroços que eclodiram, que não sabem vazar de uma vez. O médico passa, cabisbaixo, nem sequer a vê. Leva em mente outras aflições, que lhe tocam na porta a cada hora, fosse ele acudir a todas, e já os seus olhos se teriam mirrado de vez, de tanta desgraça verem. Seguiu. Na sala amontoa-se gente que lhe quer os cuidados, enquanto ele, de ar franco e cansado, veste uma bata branca que lhe esconde as vestes russas, que pouco lhe importa o que lhe assenta no lombo. Interessa-lhe apenas que o aqueça, que em terras da Guiné, os seus precisam de si, e o tanto que lhes manda, ainda é pouco. Precisam de tudo. Várias irmãs, um número considerável de sobrinhos, alguns cunhados, poucos, que vários já partiram. Lá ainda se nasce, diz-me. Não há outro entretém...
Chega a vez dela. Os olhos pedem uma atenção infinita, uma cura que nem lhe existe para os males do corpo, que num ápice o Doutor conclui, que o que a atenta, são os males da mente. Esta é para ti, diz-me entredentes. Sorrio. Pudesse ela ao menos pagar-me, com a cor dos seus olhos.

2 comentários:

  1. Que LINDOOOOOOOOOOO!!!!!! Epá, esta última frase é digna de...sei lá...um Eça?! ou talvez Torga. Sim, Torga, definitivamente.

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  2. Pagam... Com o sorriso que muitas vezes nos deixam quando se despedem com um "até à próxima".

    Maria

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