sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

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Não sei se me consigo acostumar a um mundo que tem velhos sem dinheiro para pagar a renda do sítio onde moram há anos esquecidos. Não sei ainda se consigo conceber a ideia de os olhar a mirar as paredes corridas dos corredores onde se dependuram fotografias de papel ou de memória, as melhores do mundo, sem saberem se ali poderão permanecer durante o tempo que ainda pode vir. Não aprecio excesso de dramatismos, escândalos à tarde na boca da Fátima ou da Júlia, não aprecio sequer os discursos emitidos por quem apenas fala sem pensar no que efectivamente importa, no caso das pessoas com reais carências do básico e do essencial. Este meu texto insignificante vale também ele coisa nenhuma, sinto-me na obrigação de o dizer, trata uma mera opinião para com um sistema que desdenha a fragilidade de fim de vida, que o trata como um sítio de passagem onde cai quem não morre a horas, e que por isso mesmo vive consequentemente demais. Mas é que cada vez mais, nas minhas alienações felizmente inconsequentes, me assume sentido a perspectiva do desfecho com um botão género interruptor de parede, que desliga quando o mundo se cansa de nós e quando deixamos de ter coisas para oferecer, para passarmos a possuir apenas precisões. E isto sem idade marcada, claro. As precisões cansam quase sempre o cuidador, em pessoa e em sistema,  que ainda vive escorreito nos dias de sol onde tudo se aguenta e nada custa rigorosamente nada, a não ser os empecilhos que pejam passos apressados. Ainda hoje nos correios, perante uma fila considerável que contava euros até à loucura dos duzentos ou trezentos, ouvi uma opinião, eventualmente ainda mais pronta do que a minha. Falava o senhor, mirrado, corcunda e de bengala na mão, numa trituradora que desfizesse tudo de uma vez só, género papel confidencial nos gabinetes de contabilidade. Puf, that's it. 
De facto, acabava-se com a moléstia. Cortavam-se os males pela raiz, uma limpeza orientada a critério, mas que ia-se a ver e na execução da ordem deixava cá aquele, bem como tantos outros como ele. Levaria por certo, e por ordem de prioridades, primeiramente os gordos de bagagem que poderiam compor sistemas com o que deixariam para trás, se continuasse sem haver direito a transporte para o lado de lá. Concluía-se então, mais do que certo, que nem a morte gosta de miséria, quanto mais a vida. 

( Não estou nada contra os senhorios. Só para que fique esclarecido.)

4 comentários:

  1. Também acho dificil vir a acostumar-me com esta realidade. Viste o filme "amour" ? Fala de finais de vida. Sempre um assunto complicado, um murro no estomago. Mas fala de um final de vida com amor ao pé, com dinheiro, com cuidadosn com dignidade. E mesmo assim, um murro no estômago.
    Agora, esta realidade, sem o que devia ser o minimo, sai de todos os limites do que pode ser aceitavel. Esta realidade nunca deveria ser real.

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  2. Não vi, Carla, mas terei de o fazer, porque o tema interessa-me profissionalmente. De facto, esta realidade não deveria existir. Esta, e tantas outras a que assisto no dia a dia. Todas os grupos frágeis são uma grave lacuna da sociedade. Por muito que se fale, a verdade é que são quase sempre desprotegidos...

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  3. Se for só para ler e não fazer nada, ficamos na mesma!
    Eu ainda acredito que cada um de nós pode e deve agir.

    Abraço

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  4. Claro que sim, começando no que temos perto. Se todos o fizessem, tudo seria mais tranquilo...

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