terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

da ordem

Aprendo infinidades de coisas com o meu filho que ainda nem sequer tem dez anos. Ensina-me como ninguém que a fraqueza é para amparar e que os erros são para desculpar, e isto sem abri a boca pequena e faladora que trabalha em outras palavras, outras curiosidades, outras entregas sem carga de intento efectivo, nascidas da vontade que por ora o guarda muito mais do que a mim. Gostava de ainda poder viver de vontades, mas isto é só um aparte, uma utopia amestrada, coisa de gente crescida que já foi pequena e que já não volta a ser. Aprendo com a minha gata a tranquilidade da existência. Come quando tem fome, dorme quando tem sono, corre atrás de uma bola cor de rosa quando eu chego e ela fica feliz. Tento aprender, na verdade só tento, que não a conheço ao ponto de a poder albergar algures num sítio perdido e esvaído. Fica ali, na tentativa de conceber, que busca pateta e descabida. Aprendo com a natureza um sem número de lógicas programadas pela ordem natural dos dias e das noites, dos solstícios e equinócios que os fazem maiores ou menores, da aurora e da penumbra, do sol ou da chuva que insiste em cair quando a não quero, parva que é. No meu mundo, às vezes, a ordem deveria ser outra. Muno-me de fatuidades a despropósito, como se o meu corpo pudesse, só porque quer, vejam bem, arrumar com as coerências das árvores e dos bichos, das condições atmosféricas e das horas toldadas à escuridão, dos rios que correm até ao mar e das gaivotas que fogem livres para sitio nenhum, desde que esse lugar seja seguro e tenha peixe que se coma. Misturei coisas, mas falo essencialmente de afectos. Ou não constituam os próprios a teoria mais sustentável da existência, e que me perdoem os teóricos dos números, das religiões que se querem indubitáveis, das ciências exactas justificadas no concreto. O meu filho cresce depressa, é um exemplo. Eu queria que me fugisse mais devagarinho, vejam outro. Vai-se a ver e passa, é assim, está a crescer. Nós é que precisamos da eterna impugnação, coerente com a nossa vontade de dominar o que não tem domínio nenhum.
Não mandamos em nada do que é realmente grande. Mas nunca nos habituamos.

4 comentários:

  1. :)

    Que texto fantástico! Quase poético... Fez-me lembrar Alberto Caeiro.

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    1. ann.dorinha, mas que exagero :)). Olhe, um sorriso e obrigada...

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  2. Respostas
    1. Ecos de Alma, ainda bem que gostou. Sorrisos para si. :))

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