domingo, 3 de fevereiro de 2013

complementaridades


Quando imagina, a música é invariavelmente esta. Não que os acordes tragam de arrasto palavras de valor, o que lhe entra no corpo é exclusivamente som. Começa a ouvi-lo num tom muito acima do que os ouvidos conseguem granjear, é talvez por isso que se aloja nela, inteira. A dança chega repentina, um desperdício, despreza-se a escalada crescente e atinge-se o pico num segundo que se mantém, ritmado, incansável, enérgico. Ganha-se na intensidade, inquestionável. Precisa de poucas circunstâncias. Basta-lhe um átrio vazio de gente e um DJ a passar só para ela. E os olhos que a olham da mesa, claro, sempre esperados. Dirige-se para o local escolhido ao centro no exacto momento em que a música atravessa as colunas e se arremessa, toda, na sua direcção. Inicia um movimento onde nasce, um passo de cada vez, numa entrega sentida como se a música lhe brotasse do sangue. Ela só ouve, ele só vê. Mexe-se vigorosamente enquanto abre ligeiramente a boca que emite uns murmúrios que acompanham a letra juntamente ao corpo, este mais destro, mais pronto, totalmente subjacente a um ritmo frenético que se sente à distância pelos gestos que lhe saem das pernas soltas, debaixo da saia exageradamente curta. Gosta de olhar para os pés demoradamente enquanto os braços se levantam em direcção às luzes que faiscam muito menos do que ela, apagassem tudo e vê-la-iam, sozinha, enquanto a música tocasse ou ela a ouvisse. A dado momento, num frémito insistente do refrão, estremece além do já fraco refreamento e perde-se num descontrolo efusivo, um atrevimento que paira enquanto as batidas insistem nela, incessantes, pertinazes, impostas. No anseio extasiado descalça os sapatos altíssimos e desce ao chão, que a consente como a um bicho perdido que rodopia em desassossego descompassado, um descalabro. A música aproxima-se do fim mas ela não sente. Continua num crescente movimento que executa em entrega exacerbada e abana-se continuamente, até que o som se cala de uma vez, altura em deixa de só ouvir e restaura os demais sentidos. Ele, ainda só vê. Ela dirige-se aos sapatos que volta a calçar e que a deixam de novo a roçagar a racionalidade. Avança até ele e senta-se a seu lado. Respira fundo, molha a boca no Hendrick's e pergunta-lhe ao ouvido: Amor, ouviste bem esta música? Querida, responde, vi-te bem, a ti. 

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