segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

gritos

Acordou de manhã e arrojou palavras sem fim que riscou a a azul forte numa censura revivida dos tempos em que a ditadura governava os povos. Ficou a olhá-las com um ar enfastiado de nojo, a arrumar cada uma num saco sem fundo capaz de acomodar uma vida vivida no cimo de uma escadaria com águas furtadas batidas pelo vento, onde um pássaro dançava. O pássaro cantava todas as manhãs um assobio sempre igual, num ranger desengonçado a ameaçar cair a cada sopro do vento que nunca o levou. As flores da varanda, verdes, cheiravam a cravos vermelhos da cor da liberdade e a sangue fresco que escorre nas veias de quem passa perto. Consegue sentir-se o calor nos corpos que andam nas ruas frias de Inverno e que desatinam apressados com destinos que ninguém sabe quais são, a não ser quem corre, e por vezes não. Outro dia, por exemplo, um homem corria sem direcção nenhuma quando voltou para trás, desesperado. Ficou a mirá-lo a percorrer a avenida no sentido inverso ao tempo, enquanto os minutos e as horas marchavam descompassados no corpo que os desafiava como se pudesse vencê-los em cada passo que dava, em cada respirar que engolia, em cada mágoa que guardava no peito embrutecido. Outra vez foi o velho que entrou no autocarro 30 e que afinal queria entrar no 33, pelo que entrou por um lado e saiu pelo outro, antes mesmo do arranque. Sentou-se outra vez, abriu o jornal na mesmíssima página, ajeitou os óculos na ponta do nariz, esfregou a barba e voltou a ler, tranquilo, assim parecia. Havia uma mãe que levava dois filhos, um em cada mão e uma vizinha que acompanhava o marido corcunda de braço dado, a servir de bengala. Uma jovem abanava-se, enquanto as montras falavam com ela mais do que qualquer pessoa lhe poderia dizer. Há palavras nisto tudo. Quem não sabe para onde vai grita desespero, quem corre contra o tempo grita força, quem espera grita desânimo. Quem leva filhos pelos braços grita amor, quem ampara grita generosidade, quem só ouve o espelho grita vaidade. 

2 comentários:

  1. Pior do que tudo isso é quem não sabe o que grita :( :(

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  2. Pois é. Mas grita-se sempre, mesmo que não saibamos o quê...

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