quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

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Gosto quando tenho a mania que sou gente grande, sem medos que me escorram no corpo à noite ou quando troveja, ou ainda quando o sol é demasiado quente para que se possa viver sem sermos felizes daqui até a um local invisível, vejam que lonjura. E que loucura. Nesses dias que são alguns, estou-me a borrifar para os fanicos que me dão na ânsia disto ou daquilo, para as saudades que me abrem o peito e que explodem para me deixarem a morrer em desespero, para as noites em que procuro, vazia, sem encontrar mesmo a sério o rasto a que me cheira. Tudo isso se vive e se suporta, tudo isso eu abafo no meu corpo que engole limites como quem come amendoins salgadinhos regados a panaché, acompanhados de um cigarro se for caso disso e se a vontade pedir. Ajuda na digestão do sal e na acidez da bebida, digo eu em vez de vício, soa significativamente melhor. Nesses dias que são alguns, sorvo ar como quem engole realmente vida, e corro sempre com destino traçado a rigor nos marcadores da viagem, estabeleço o que devo, o que não devo e cumpro, sofro todos os fardos que alombo no corpo que nunca se cansa de subir os montes que nascem no encalço uns dos outros, uma estafeta invisível que se desenha maquinal, com obstáculos. Nunca vi o testemunho, mas adivinho-o de mão em mão, as minhas, esquerda direita, mais se houvessem, volver, siga, andor. Viro tudo do avesso, saco de uma arma que atira a matar no caminho e me salva dos bandidos duma figa e vou sempre em frente, num turbo acelerado sem combustível visível. Gosto tanto quando tenho essa mania. Quando tenho essa mania regresso aos tempos felizes de criança em que os dias corriam certeiros e respirados na teimosia da idade que me possibilitava o que quer que fosse, mesmo que o que quer que fosse ficasse do outro lado do mundo e custasse a alcançar, muito mais do que os rebuçados que me ofereciam no café por cada sorriso interesseiro. No café, nada de pastelarias, sou da província. Aterrava na cama ao fim do dia com a mesma ambição com que acordava na manha a seguir e ficou-me para a vida mas em dias intervalados, ele há com cada uma. Não é sempre é só às vezes. Gosto tanto quando tenho essa mania. Quando tenho essa mania de que sou gente grande e que por causa disso não tenho medo, porque o medo é coisa de gente pequena, que nos ganha - em larga escala - porque muito além dele, pode tudo quanto quer. 

2 comentários:

  1. É a melhor mania do mundo e anda a fazer-me tanta falta :)

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  2. É uma das melhores, sim... E faz-nos falta todos os dias... :)

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