terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

bonés, gorros e outros adornos

Espreito numa nesga de porta e está sentado com uma espada na mão. A cabeça encontra-se envolvida no carapuço da camisola cinzenta de fecho à frente e brinca, sem nunca destapar o cabelo. De há um tempo a esta parte encontro miúdos que se enfiam dentro de gorros ou carapuços, e penso no porquê. Faz-me recuar aos tempos em que o meu avô escolhia uma boina a condizer com o casaco de fato e com a gravata de nó muito fino, vaidade, nele por certo pouco mais do que pura vaidade, de um homem que nasceu demasiado belo num mundo de mulheres. Não sei se aprendeu a vivê-lo, julgo até que não, os exageros são sempre uma dor de cabeça demasiado dorida para que dela nos consigamos libertar e depois, viver. Recuo ainda aos adolescentes que há anos viram bonés, uma irreverência exposta que faz com que se passeiem com um orgulho gingão e um corpo ligeiramente pesado com inclinação para a frente, como se na carga dos ombros levassem o mundo às costas e gostassem disso. E pudessem com ele, essa é que era. Hoje, verdadeiras vivas aos gorros e carapuços. Pergunto directamente sem ser preciso, para quê isso, quando não está frio? É moda, diz-me, como se eu não soubesse essa parte e perguntasse apenas o que não sei. Será, claro, mas desconfio que não será só. Talvez porque me enfio de imediato no chapéu de palha com aba larguíssima que me acompanha os passeios nas tardes de verão, mesmo quando não esta sol. Em conjugação com os meus óculos gigantescos guardam-me também dos olhos do mundo, além de me guardarem os meus. É estilo, intenção, mas é muito mais do que isso, que temos o hábito de juntar tudo aos sentidos do corpo e daí retirar conclusões apropositadas. Se sinto conforto, nada me causa dano, se não vejo com os meus olhos é porque não há, se não deixo escapar pela boca é porque não sinto, se me tapo, ninguém vê.

( Não é por nada que o psicanalista fica sempre na retaguarda.)

4 comentários:

  1. A diferença entre a boina do avô e o gorro do rapaz da espada, está no tempo.
    No tempo e nos jogos das consolas, dos ai pédes e dos ai podes e dos ai que paciência que é preciso ter.
    ;)))

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    1. :) Algumas, Bartolomeu. Mas olhe que não só. A boina, só enfeitava...

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  2. Há adornos, bonés, chapéus, penteados, etc., etc., que são o retrato de uma época, de uma pretensa forma de estar.
    Para além deste aspecto prosaico, penso estar-se perante uma imensa necessidade de alimentar o ego, a auto-estima, e por vezes, creio - no caso concreto de gorros e quejandos -, mostrar a "marca" de grupo.

    Vou ficar por aqui. É que "Uma Mulher que não chora" é algo de estranho!
    Essa limitação não se aplica APENAS ao Homem?!

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    1. GL, marca de grupo, sim, também. Mas olhe que não era o caso...

      Toda a gente pode e deve chorar quando é preciso. O nome é apenas uma pequena provocação...

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