quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

da compreensão...

Sempre ouvi dizer, ou melhor, sempre soube, que o corpo é aquele invólucro que se desmancha em três tempos, apedrejado por génios maleficentes que despertam mais ou menos à meia noite, quando tentamos arrumar com os despertares todos que nos assaltam a mente capaz de dormir. Respiramos fundo, contamos carneiros aos milhares, descobrimos que essa bicharada é uma patranha maior do que a política que se vende barata e ainda que os chás de camomila sossegavam a avó Maria nos dias de chuva e mais coisa nenhuma deste mundo, o que é mais ou menos o mesmo que dizer que hoje não servem para nada, a não ser para adocicar as memórias resistentes aos tempos ansiosos do xanax. Debruço-me na lareira morna que já mal crepita, empurro-me para o calor que deveria atingir-me e levar-me para longe, mas a única coisa que consigo é o inverso, fraqueza minha, ou fortaleza tua, saber-se agora. Insistimos na causa das coisas, sei disso. Porquê?, era um livro que me ornamentava a escrivaninha do quarto de pinho, no qual centenas de perguntas tinham resposta, outras tantas tinham causa, mais algumas tinham uma exposição lógica, como se tudo neste mundo estivesse obrigado a uma fundamentação linear, com principio meio e fim. O pedido de explicação é coisa  que oiço em cada esquina, perdida nos corredores do ofício, nas tramas da família, no circulo, restrito, das relações de amizades, em mim e em ti, vê bem. Tenho dias em que embalo. Sigo desembestada no turbilhão imposto da clareza e da explicação, retorço o corpo intrigado na busca de porquês justificativos para os dias e para as horas, para as noites e para os fantasmas, para os poemas e para as palavras, para os sorrisos e para as  bofetadas. Consigo sempre qualquer coisa, que seja um nico de nada, uma luz imprecisa, uma justificação que me alimenta as ideias e despejo tudo no local exacto da reciclagem. Sei tudo o que se pode saber, por vezes ajuda, outras será igual ao litro, sorrio de satisfação com a obra feita e parto em nova emboscada, eventualmente sem tomar o gosto do que recebi. Sem problemas, percebi, estás percebido. Mas o que eu gosto mesmo é quando nos estamos a borrifar para o assunto, sabes? É porque sim e basta. Não, nada é por acaso. Mas sentir sem perder tempo a perceber é do melhor que há, quando a coisa é boa.

(Há dias, em que juro, matava o meu intelecto.)

2 comentários:

  1. Às vezes ele, o intelecto, é um exponenciador de disparates, um reprodutor de angústias, um acelerador de tempos perdidos. Às vezes devia parar, a bem de tudo o resto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O intelecto deveria vir dotado de um regulador, Paulo, se é que me entendes. Acho que a nossa felicidade depende muito de como o gerimos, de como o encaramos, de como o deixamos a dormir, de vez em quando e a ser preciso...

      Eliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores