domingo, 29 de maio de 2022

urgência

Há dias em que a minha urgência não se vinga na fome, no cansaço, na rapidez de uma gargalhada ou no desconforto de umas lágrimas. Há dias em que a minha urgência é receber respostas imediatas para as perguntas de sempre. A paciência, a parcimónia, a tolerância e todos os registos calmos da existência desaparecem do meu dicionário, mergulham no breu, confundem-me as entranhas e a minha necessidade de certezas, que rebeldes como só elas sabem ser, aguardam-se escondidas  no infinito. Sei todas as lições dos livros. Conheço de cor e salteado todas as regras da calma, da clarividência, da fluidez, da inesperabilidade da vida, da impossibilidade do norte certo, do futuro concreto, do fim previsto. Sei que não há como o tempo para direccionar o percurso, e que não há melhor do que a experiência para nos construir o calo com que vamos cavando a pulso o nosso próprio colo. Mas há dias, repito, em que a minha urgência desnorteia a regra do conhecimento, rebela-me o corpo inquieto, empurra-me para uma espécie de precipício e empurra-me, sem dó nem piedade pela encosta abaixo. A mesma que enfurecida me fere, me golpeia, me massacra, me funde com ela mesma na água que escorre, na terra que salta, nos ramos que parto à minha passagem turbulenta. A urgência nunca me assiste em harmonia. A não ser, raramente, na pressa inconsequente de algum desejo.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Certezas

Um dia acordei e descobri que podia ser eu a sentir o que já escutei de vozes aflitas. Que podia ser eu a temer pelos meus dias e pelas minha noites, pelos meus sonhos escondidos e pelos meus projectos inacabados. Eu já sabia que a vida nos trai como um homem de meia idade, sedento de mudança. Sabia que ela se enche de sopros que nos encostam a paredes e a espadas, paredes duras, frias e silenciosas, espadas firmes, violentas, precisas. Nada disto me espantou. Nada disto me fez redimensionar o espaço da minha existência. Nada disto me fez acreditar mais ou menos no divino, ou procurar respostas escondidas na fraqueza da esperança. A esperança é uma fraqueza, é um encosto mortiço e frágil, derrubado por uma   brisa que parece não mover um grão de pó. O silêncio talvez seja o que mais dói, quando a esperança se aloja em nós como um bichinho de conta prestes a ser espezinhado. O silêncio na dúvida mata o sossego, derruba a mente, cria desarmonia no espaço côncavo do nosso corpo. Engraçado, mesmo que todos falem alto e ninguém se oiça no barulho, o que reina é o silêncio. Quem sabe da resposta que não queremos encontrar, quem sabe se das ausências que nos atiram ao rosto com força, como chapadas sem respeito. 


Hoje esteve sol, um sol irritante, quente, alto. Nele, como em tantas vezes, descubro a afronta comigo mesma, que em estado morno atravesso um deserto com uma porta entreaberta, que batuca ao vento: tum, tum, tum. Bate com força, teimosa na vastidão da incerteza, como que a dizer-me, sábia e persistente, que o caminho é só ali. Não me abranda a malvada, persigo-a de perto, bailo ao pé dela uma música lenta, nada condizente com a minha natureza desassossegada. Não consigo para já perceber o que pensa de mim, mas adivinho-a intrigada, agitada, desvairada no seu deserto de certezas. As certezas são sempre um susto na nossa existência. São aldrabonas, vigaristas, fazem lembrar os pregões de Lisboa. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

busca

Grupos de mulheres são um mundo que reúne a veracidade dos opostos. Ali convergem inúmeras reacções, que encerram construções, ambições, sentimentos, projecções. Há alguns com os quais me identifico, elegem o amor e o sonho, posso acreditar ou não, mas gosto muito. Há os que se concentram na prática do quotidiano, os filhos, a casa, o supermercado mais acessível, a receita mais eficaz para a tosse. Há os que se concentram na futilidade, um território alargado e inexplicável que por vezes mata tudo quanto é verdadeiramente importante, uma espécie de vazio vestido ao rigor de uma festa com direito a passadeira vermelha, dress code, e discursos que falam sobre a fome no mundo, os animais em extinção e a fragilidade do planeta. Não sei porquê, quase todos me confundem, quase todos me fazem afastar o quanto posso da generalidade do meu género. Escapam-se muitas, novas, velhas, analfabetas ou universitárias, ricas ou pobres, sociais ou solitárias. Que conseguem olhar para a consubstancia do mundo e falar dele com o sentir de uma mártir, com a sensibilidade de um toque ao de leve, com a consciência, clara, das forças opostas, e com a vontade, inabalável, de ainda assim continuarem em busca delas. 



quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

mundo

A moral do ano é infinita. O balanço pertence a cada um, que não exista ócio na hora de nos debruçarmos sobre nós e sobre os outros. Retirei dele inúmeras situações, poucas conclusões, algumas memórias internas e eternas para a minha vida. Estou grata por tudo, é um facto, curiosamente muito grata por algumas coisas menos boas que sucederam. Nunca como hoje tive definido com tanta certeza, o que quero ter longe de mim. Com respeito, porque o mundo abraça todas as opções de vida, claro. Mas eu não sou o mundo, sou só o meu mundo e o dos meus. E é tanto, que me chega.

sábado, 12 de dezembro de 2020

certezas

As certezas absolutas são mais privadas do que o nosso corpo, por isso acreditamos tanto nelas. O nosso corpo é partilhado pela vida, pelos outros, molda-se a um abraço, a um toque, a uma esquina cheia de gente ou a uma rua vazia, carregada de nada. As certezas não. Formam-se na mais interna existência, ganham consistência com os dias, com a verificação da verdade, com o cristalizar da guarda e com as crenças que se afiguram como o caminho preciso a seguir: é por ali. Curiosamente, traem-nos à velocidade da luz. Quando menos esperamos, quanto mais certos estamos, à custa de pouco ou de nada, eis que se anulam a elas próprias, fátuas como a neblina, como se nos quisessem fazer consciencializar que a volatilidade é a única certeza do mundo ( o que transforma a dúvida, na única e permanente verdade).

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Vitória

Sentado à minha frente, com o seu metro e sessenta, quase me aniquila o engenho. Sorridente, bem falante, bem disposto e bem sucedido, articula as palavras com uma simpatia inusitada, como se de repente deixasse de ser quem é e se tornasse em outro alguém, distante da prepotência usual. Estou habituada a eles há muito tempo, mas curiosamente senti-me fraquejar. A primeira sensação foi de medo. O que seria aquilo, estaria eu doente, fraca, dependente ou pouco eficiente? Por que raio agora, anos volvidos, experiência feita, postura identificada, diagnosticada, atestada e comprovada, vergo que nem uma vara, capaz de dar o benefício da dúvida à cruel criatura que se senta à minha frente? Parei para pensar. Sosseguei as dúvidas, serenei a esperança, recuperei o fôlego tropeço e levantei a guarda, a única que sempre me salvou em aflição. Funcionou, contas feitas, tudo acabou bem. A criatura, imponente na astúcia, mas parca em real engenho, terminou a guerra ciente da vitória. Eu, cabra velha e manhosa, deixei-a a acreditar nela.   


Não há nada que me dê mais gozo, do que as medalhas que ninguém vê.  

segunda-feira, 27 de julho de 2020

calor

O calor apanha-me sempre desprevenida. Nunca o espero, tento sempre trocar-lhe as voltas, finto-o, recuo, escondo-me na esquina da primavera, disfarço-me dentro de casa, à guarda dos livros, das paredes, ou na rua, ao abrigo de algumas árvores que me olham de perto, barulhentas e vivaças. Hoje alcançou-me ao fim do dia, quando já menos se espera, quando o sol já se escondia e o vento tentava entrar, mortiço e apagado. Na natureza as forças encontram-se todos os dias, numa batalha invisível a olho nu. Num dia vence a força, no outro a inteligência, no outro a verdade, no outro o amor. 

domingo, 22 de março de 2020

medo

Talvez não haja emoção mais visível do que o medo. Por muito que a tentem esconder escapa por entre os gestos, na ânsia do sossego que insiste em resistir. Nota-se algum esforço teatral para que a normalidade se faça transparecer, quebrada pelo indómito " temos de estar longe, temos de ficar em casa", que surge na validação da ausência do cumprimento habitual. " É a vida", dizemos todos, obedientes e impotentes perante a força maior do desconhecido, numa racionalização que não pretende mais do que acalmar o nosso interior. A alegria por sua vez é a emoção da vida, expande-se de outra forma, é natural, mais ou menos subtil. A zanga pode viver submersa em nós por uma vida, deixando marcas no corpo, mas conseguindo ser mestra em matéria de contenção e recato. A tristeza, ai a tristeza. A tristeza vive na poesia, nos dias e nas noites, nas memórias, nas luas, nas recordações e nas melancolias, e consegue ser só nossa como nenhuma outra pode ser. É o medo, sim, é o medo. O medo é a maior de todas as verdades, não há olhar que o esconda, não há passo que não o denuncie. 

sábado, 14 de março de 2020

(...)

"É a crise", dizia sempre Albertina, referindo-se à sua vida complicada e difícil, ou não fosse Israel um senhor altivo, imponente, e, por escolha, seu marido. Hoje se fosse viva faria muitos anos, num dia abençoado pelo sol e amaldiçoado por uma crise diferente das que ela conhecia. Não sei se maior, não sei se pior. Resta comemorar em memórias, em cheiros que não esmorecem, em lugares que se encontram desenhados em nós, perfeitos como só o colo de uma avó pode ser. Nunca mais se comeram pastéis de bacalhau, feijão com azeite e coscorões. O segredo era pouco mais do que nenhum, deveria ser mais da cozinha, do lugar, dos bancos da mesa e das mãos que embalavam tudo com uma mestria maior: a do amor aos netos. Os avós são logo a seguir aos pais, o início de tudo. Terminam primeiro, vão para o céu, como que para nos ensinar que dentro da nossa existência, o que nos segura é o que não se vê.

domingo, 8 de março de 2020

amola-tesouras

Estava eu a costurar quando me lembrei dela. Por vezes lembramos os nossos mortos pela falta que nos faz o que nos ensinaram com o saber da vida, nos tempos em que ainda estamos longe de perceber o que uma agulha e uma linha podem recuperar. A minha tesoura, perdida na caixinha das linhas cor-de-laranja, não corta. Morde  o tecido, morde-me as mãos, mas não separa o que tem de separar com o rigor de um corte a direito, como eu via a minha avó ordenar na ganga estendida sobre a mesa do sótão. Necessita de ser amolada, mas da última vez que ouvi um amola-tesouras, não a tinha comigo. O amola-tesouras passeava-se há muito tempo pelo Ribatejo nos dias de chuva. Tinha uma música que ecoava à distância, dependendo do vento, e ela costumava sair para a rua com a sua tesoura de costura comprida e sempre impecável. Hoje, ao deparar-me com a incompetência deste meu utensílio, lembrei-me que dentro da Bernina antiga, que mora nos quartos do fundo da minha casa, encontram-se alguns objectos da sua verdadeira e única dona. Fui lá num salto, abri a gaveta, encontrei carrinhos de linhas, botões, fita métrica e bobines suplentes, mas nada da tesoura, que deve ter seguido em herança para um outro alguém. A minha memória por vezes atraiçoa-me, estava quase certa de a ter visto lá, ao mesmo tempo que, no mesmo nível de certeza, sentia que estava longe... 

Hoje, por uma prudência de devida cautela, foi cancelada a inauguração da minha escola primária, que reabria ao público muitos anos depois, pelas mãos de um benemérito. Eu era uma das convidadas para contar aos meninos de agora como era a escola do antigamente, onde um pequeno armário de madeira guardava a fabulosa biblioteca, onde um aquecedor a gás aquecia as mãos geladas de quem calcorreava alguns quilómetros para lá chegar, onde o recreio era constituído por um pequeno pátio, sem telheiro, onde meninos e meninas jogavam ao peão, saltavam ao elástico e subiam a árvore que timidamente se erguia torta, ao lado da casa de banho, obviamente fora do edifício. Eles não iriam acreditar que seria possível viver assim, num mundo sem telemóveis, onde o momento do dia era a hora em que se bebia o leite com chocolate e se recebia a caixa grande que guardava os 24 pacotes, com um desenho para pintar que valia uma vida. Ou o momento em que chegava o senhor que vendia batata doce assada, numa mota vagarosa e ruidosa. Ou ainda, o momento em que se levava a tesoura para amolar, e escutávamos o chilrear do aparelho a roçar o metal, à distância perigosa do muito perto.

Hoje os sons não são iguais, o que desenvolve uma vida diferente, dentro de nós. Já não se costura como antigamente, e já quase ninguém sabe que o amola-tesouras vinha com a chuva, porque também arranjava chapéus.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

inquietos

Há na sociedade uma incrível tendência à perfeição. Oiço-a quase sempre em silêncio, como se ali ao lado cantasse um fado, palavras que inseridas umas nas outras produzem uma sonoridade cadente, de um lado o que é certo do outro o que é errado, uma pauta musical que se justifica pela vontade indómita da informação e do conhecimento. Nessa orquestra, e muito embora imensas verdades possam convergir, há uma convicção alicerçada no ego de cada qual, sempre devidamente fundamentada e condimentada com o que cada pessoa tem de melhor, ou do que ouviu na noite anterior de um autoproclamado erudito na matéria. No final da história a moral é sempre a mesma, e estamos longe das fábulas de Fontaine. Nestas existia uma moral a aprender, mas na história da sabedoria individual, carregada de eus indiscretos e perdidos no nada, há alvos a abater. Não há nada pior na sociedade actual do que pessoas que consigam manter-se à parte desta insana sabedoria popular e colectiva, que engloba muitos dos assuntos fracturantes da actualidade. Quem o faz, quem à margem do joio se ergue e rebenta na sábia ignorância de quem não conhece, procura respostas sem obstinações rápidas próprias da multidão, e é olhado com desdém por quem já sabe tudo o que deve saber. E o que me assusta às vezes, nem é só isto. É olhar para um sistema de educação que permite a alguns intervenientes perpetuar a continuidade deste conhecimento absoluto e irrefutável, ceifando a direito quem ousa questionar e procurar outras respostas. Como se estes inquietos não fossem o futuro, e como se quem nada questiona, não fosse a estagnação.

A boa notícia é que os espíritos inquietos nunca morrem.

domingo, 26 de janeiro de 2020

vinho tinto

A cidade estava mais fria do que o habitual. Na rotunda respirava um vento que atravessava a pele até aos ossos, os olhos das pessoas lacrimejavam num choro do corpo, consciente como só ele da agrura da nortada. Eu olhava entretida para as pedras da calçada, enquanto os meus pés, rápidos e certeiros, procuram um caminho que se queria curto, mas que parecia longo demais para se lá chegar. Parei numa escada dos CTT onde o abrigo aos pingos da chuva se fazia sentir num alvoroço de pessoas, que ao Sábado de manhã governam a vida que se viverá durante a semana. A praça, o pão, os essenciais que deverão adocicar os dias com conforto, e que só quem tem se esquece ser um dos mais importantes. Abriguei-me ali uns segundos e vi um homem sentado no chão, com barba grande, casaco comprido, chapéu alto e um olhar morto. Ao lado dele um pacote de vinho tinto de marca branca, como que a querer dizer-nos que a vida está cheia de incongruências, mesmo quando grita muito alto. O queixo do homem tremia de frio, as mãos estavam sujas e gretadas, a pele emanava um cheiro forte e incómodo, era grande, mas quase ninguém o via. A senhora perfeita e elegante, que segurava com a sua mão delicada o sobretudo beije perto do pescoço, não o viu. A velhinha que empurrava o carrinho do supermercado, apressada e encurvada, não o viu. O jovem que olhava para dentro do telefone, como se naquele dispositivo morasse um mundo, não o viu. O senhor que parou a levantar dinheiro, de gabardina cinzenta de bom corte, e postura cordial, não o viu. Ninguém o via, ou ninguém parecia ver, até que passa um homem de fato completo e passo muito acelerado. Levava por certo um destino marcado, enquanto na mão segurava com força o saco de papel com um jornal da nossa sociedade, num ondular muito certo, de acordo com o abanar da mão. Chegou-se um pouco ao abrigo da intempérie, e tropeçou no senhor de olhos mortos sentado no chão. Estou quase certa de que o viu, posso assegurar-vos, dado que vociferou um impropério pouco digno para um porte altivo, sacudiu os pés e seguiu o seu nobre caminho. O homem, movendo um só braço, deu um gole no vinho e continuou a olhar em frente. 

sábado, 18 de janeiro de 2020

quedas

Não há maior rasteira do que a que a vida nos passa, discreta, sem que estejamos preparados para ela. Não avisa, não dá sinais, não nos dá tempo para devagar arranjarmos a pose, cuidarmos o passo, elevarmos o queixo, arrumarmos o casaco. De um segundo para o outro atraiçoa-nos a esperança do que já se foi há muito tempo, do que já morreu afogado num mar de tubarões, do que se enterrou há muitos anos junto com lágrimas e memórias. Ia eu a andar naturalmente, num dia sem registo, num quotidiano sem relevo, num lugar sem história. Ainda me voltei para trás várias vezes. Ainda apurei o nariz traiçoeiro, ainda procurei com os olhos cansados, ainda insisti no instinto vadio não fosse a vida desafiar-me e o malandreco estar certo. Não estava, não poderia estar, é a lei da natureza. Nesse instante compreendi o que tantas pessoas me relatam de olhos rasos e de rosto fechado. Sem por lá passar ninguém sabe o que é a ilusão do regresso do que já perdemos para sempre. É como se de repente o tampo recuasse, a história ganhasse forma, o corpo se agarrasse de novo ao conhecido. E a mente, parva como só ela, acredita cegamente no que naquele instante acontece, só até cair desamparada no aqui e no agora. 
Nunca me conformarei com a nossa fraca condição de sobreviventes. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

dúvidas

O assunto era "o amor". Ninguém sabe ao certo o que dizer sobre o indizível, o que reside nos confins do inexplicável, sem possibilidades métricas, óbvias e irrefutáveis. Muito se opinou, muito se concluiu, tudo ficou afinal de contas por dizer. Fixei-me num dos pontos de análise, não há outra forma a não ser dissecá-lo se pretendemos pensá-lo, será mais ou menos como dividir um campo de visão sob pena de perdemos a melhor parte. 

O amor fácil por exemplo, é tão simples o amor fácil. O amor sobre o qual se fala sem interjeições, limpo, claro, um amor partilhado a rodos pela humanidade. Este amor assenta num pressuposto individual, onde o que importa é o que se transmite e o que parece ser, a culpa que morre um bocadinho sempre que do outro lado da linha vem uma palavra de sossego, que aconchega o nosso ego e nos dá a sensação de dever cumprido (até breve, esperamos que assim continue). Sobre essa forma de amor há pouco a dizer, mas julgo que a deveríamos ter mais em conta, pela quantidade dispersa pelo mundo. É um amor aparentemente sadio, que parece resistir às intempéries das almas, que segue em fila pelos caminhos da vida, desviando-se das pedras, dos buracos, das dúvidas e das barreiras. Não há usualmente grandes sobressaltos, pelo menos no mentor desse amor. Já quem o recebe, pode por vezes sentir-se sacudido por um qualquer desconforto mais ou menos transitório, que parece fazer comichão quando na realidade se necessita de um colo. Mas a bem da verdade o costume engole o excepcional, e bem vistas as coisas aquela pessoa está sempre perto numa espécie de distância de segurança marcada pelo quotidiano, é melhor manter e aconchegar, não vá o diabo tecê-las. 

Depois, ensaiamos um outro género de amor, o mais difícil, aquele que se inunda seriamente dos afectos, e onde o outro assume um papel muito mais importante do que nós próprios. É aquele onde o bem estar de quem amamos importa muito acima da nossa obrigação, mas que curiosamente parece aos olhos do mundo muito menos visível. É um amor complexo em toda a sua dimensão, porque constrói uma dualidade existencial superior, e pode doer,  magoar, pode transcender o que qualquer dicionário consegue exprimir em palavras. Para este, nem todas as pessoas estarão eventualmente preparadas, é talvez um caminho pessoal, que converge numa ligação dual e profunda. A maternidade e a paternidade são bons e óbvios exemplos, mas diria que nem sempre, e diria ainda que poderão não ser necessários. Quem se encontra realmente consigo muito mais depressa encontrará este estado supremo da existência. Quem não sabe de si procurará, navegante no visível, no mensurável, no imediato. 

Resumindo, só quem se encontrou pode querer saber do outro verdadeiramente, sem procurar mais nada para si próprio. Não deve ser algo fácil de se encontrar no seu estado mais elevado, mas consideramos, no grupo da conversa, ser uma das mais puras formas de amor. 

No final de tudo bebemos um chá e entramos em introspecção, num beco difícil de digerir. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

ciências

À discussão encetada sobre a mesa do jantar, insisto na importância da história e da filosofia para o desenvolvimento humano. Repito que o carácter se desenvolve no pensamento e na viagem pelo trajecto do mundo, e que sem eles nunca seremos ninguém. O pragmatismo defendido por quem aprecia que um e um seja sempre igual a dois, sem se debruçar minimamente nas variáveis externas imensuráveis,  refuta claramente esta minha teoria. Mas ora vejamos, e sem qualquer desprimor pelas exactas, profundas preciosidades da medicina, da física, da mecânica, da informática e do mundo em geral, questiono-vos na mais profunda das ignorâncias, a quem recorrem na ânsia da paz de espírito? Ao rigor instituído de uma qualquer instituição, ou ao conforto da vossa dimensão existencial?

( As aulas de filosofia que o meu filho traz para casa, têm-me dado anos de vida. Na correria dos dias, na medição das horas de sono, de trabalho, de lazer ou de distâncias, andava esquecida do lugar seguro onde o domínio da existência nos pode levar. O senão é perigoso, mas compensa o risco. Quando conseguimos saltar da genialidade da matemática, para a genialidade dos sentidos, percebemos que nada do que se quantifica, chega para existirmos. A bem da verdade, todas as ciências fazem sentido, é o que é: o que umas arrumam, as outras desarrumam.)

domingo, 1 de dezembro de 2019

condóminos

Sexta-feira à noite. Final de uma semana com pouco glamour, vivida a sério por entre as entranhas mais rugosas do ser humano. Dirijo-me à hora marcada para a reunião de condomínio, na mesa onde se encontram vozes indignadas por incoerências administrativas pouco ortodoxas. Sento-me silenciosa, na esperança que não me encontrem ali naquela cadeira, e observo todos à distância e com calma, uma das minhas maiores qualidades actuais é passar despercebida. Duas vizinhas acendem-se na injúria, tão fácil cair ali perante um problema, ajuízam em alta voz, e gesticulam convictas da sua imensa sabedoria. Outro, quase deitado num puff amarrotado, aproveita o fim do dia para se espreguiçar, mãos atrás da cabeça, poucas palavras, um sorriso cansado e incrédulo, concordo com ele: o mais cómico é muitas vezes o inesperado e o imperdoável. Sentado na merecida poltrona, vejo o sr. Manuel, oitenta anos já avançados, a apurar o ouvido para dignificar a escuta sem necessitar de intermitências, já compreendeu que ninguém está disposto a falar mais devagar. Do Brasil, via Skype, temos a vizinha Dulce, em camisola amarela de alças, óculos gigantes, e um leque majestoso, capaz de lhe arrefecer o ânimo, o calor, e ainda de refrescar o computador, velho e massacrado pelos trinta e muitos graus do Rio de Janeiro. Volta e meia a ligação vai abaixo. O quórum fica reduzido, a sala exalta-se mais um bocadinho, inicia-se nova tentativa, e neste momento já vejo também o vizinho Joaquim ao lado de Dulce, de calções aos quadrados, boné e crucifixo ao pescoço. 

São umas nove e trinta, talvez dez. A casa, cedida gentilmente pela vizinha da frente, enche-se de repente de estudantes universitários, que chegam das aulas de desporto. Dois rapazes e uma rapariga. Eu, vizinha do lado, paredes meias com o quarto de um deles, entretenho-me a descobrir qual dos dois se ocupa noite adentro da rapariga magricela e despenteada, com ar angelical. Enquanto na minha cabeça reproduzo o ruído da cama na parede do meu quarto, adornado com uns gritinhos discretos de felicidade, não consegui chegar a conclusão nenhuma que prestasse, tudo porque o vizinho Armando grita de repente bem alto, - Temos que acabar com esta situação. E o mais rápido possível! 

Regresso ao Brasil, ao leque, à falcatrua e à realidade, e penso para mim, já tive sextas feiras bem mais desprezíveis. Só falta chegar o ladrão, sentar-se na mesa connosco, trazer o chá e o bolo de fubá, e acreditaria definitivamente estar numa telenovela da TV Globo. Que saudades, caramba.

sábado, 2 de novembro de 2019

os arrumadinhos

A calma e a tolerância não são conceitos dos dias de hoje, são conceitos de um outro tempo. Como aquele em que eu esperava, sem facilidades, que a hora dos desenhos animados chegasse mais cedo, distraindo o corpo a efectuar papinhas de esparguete e água, enquanto na minha imaginação nasciam histórias de encantar. 

Hoje já não se cultivam legumes ao natural. A pressa de chegar às bancadas dos supermercados faz com eles não bebam toda a água que têm de beber, não esperem que o sol lhes dê cor, não acordem com o vagar de umas semanas lentas e caprichosas, no toque aveludado oferecido pela madrugada. Hoje, dizem que felizmente, temos recursos para acelerar todos os crescimentos. Hoje, sabemos onde estão todos, a toda a hora. E monitorizamos em padrão pessoas, como quem pesa ao quilo um pacote de farinha para o pão. Já não desenvolvemos a paciência da espera, a tolerância da demora, a resistência que apenas se consegue com o treino intensivo da subida a pulso e da ocupação da mente. Hoje o súbito substitui o denso, no universo da sociedade, e consequentemente, no universo das relações humanas. Ninguém sabe o que é esperar e desesperar por uma carta, ninguém sabe o que é a demora do pensamento, ninguém escolhe a longa caminhada, porque a rapidez do imediato permite que façamos tudo de uma vez, num shot vitaminico falso e manhoso, em vez de saborearmos o que vamos fazendo a tempo de se fazer. A ilusão da satisfação não trata mais do que isso, uma mera ilusão. Idêntica ao arroz de pato que compramos em embalagens plásticas ( recicláveis), que apregoam bem alto saber ao arroz de pato da nossa avó ( sabem lá eles o sabor do arroz de pato da nossa avó). 

E é neste trajecto que vamos construindo pessoas a martelo, como o vinho sem corpo, como uma broa que não levedou. É assim que esperamos que as nossas crianças se tornem adultos de sucesso exterior e mediático, sem olharmos para dentro dos olhos delas e percebermos se lá dentro, no território das emoções, há sucesso pessoal e imensurável, como todos os sentimentos. Porque o que conta parece ser o que se mede, em escalas com bitolas iguais, numa sociedade onde a norma engoliu, há muito, a magia da individualidade. E depois, depois chegamos ao que eu considero o limite da desumanização e da credulidade humana. Criamos este mundo, impulsionados pela ímpar sabedoria da evolução, mas fugimos a passos largos das consequências, nefastas, da inversão de prioridades. Criticamos a impulsividade das criancinhas, argumentamos que não estão aptas a pensar o suficiente porque se distraem nas novas tecnologias, gritamos que o valor das relações se deteriorou, que não sabemos dizer não, e que a agressividade roubou a tolerância e o respeito. Quando na verdade, o que acontece, é uma corrida contra o tempo e uma vitória da norma, sem tempo e sem individualidade. O resto, são consequências.

Daqui à frustração vai um passo. Um passo que se mede, já que apreciamos a medida, em índices de infelicidade e vazio. Hoje vivemos mitigados com comprimidos que sossegam criancinhas, e que aumentam a capacidade de adultos ansiosos, as tolerarem. Todas a aprender igual, depressa e de forma rigorosa. Os topos estão nos quadros de excelência, e recebem aplausos. E ninguém percebe o porquê, de tantas vezes, se desorganizarem anos depois. Eram tão arrumadinhos. Também ninguém parece perceber que ao longo da vida muitos se desregulem, quando no universo relacional não fluí tudo como se espera, e a agrura da vida ensina da pior maneira que há para ensinar: com a crueza dela própria. Em vez de vencermos, saímos vencidos, incapazes de alojar os sofrimentos, de secar as lágrimas e confiar na placenta, imaginária, do nosso próprio caminho. O abismo seria menor se olhássemos cada vez mais para o que conseguimos evoluir enquanto pessoas. Sem medidas e sem comparações.

domingo, 8 de setembro de 2019

balanço

Hoje é um dia de mudanças para muitos dos nossos jovens. As universidades abrem as portas dos seus lugares sentados, e quem conseguiu alcançar a meta inicia um percurso que poderá ser de sucesso. Identifico-me muito com a evolução pessoal, o investimento na educação e no conhecimento. Aprecio as sociedades que permitem aos jovens crescer, mas acompanho demasiado perto alguns deles para conhecer a tensão onde se encontram, nos anos que antecedem esta vitória. Muitas escolas fracas, com professores de papel e sem história. Muitos programas pré-estabelecidos, onde a verdadeira arte de transmitir conhecimentos é engolida por metas rigorosas e medidas à régua, como se só quem atingisse o valor certo pudesse ter o dom de um dia, vir a ser um bom profissional. Ninguém, ou muito poucos perdem um bocadinho do seu tempo a pensar no que vagueará na cabeça destes jovens. Quantas contas farão ao longo do secundário, financeiras e de valores de média, quantas vezes reequacionam os percursos, quantas segundas escolhas lhes nascem no horizonte, na miragem de não conseguirem alcançar a primeiras. Quantas noites passam sem dormir a construir castelos alternativos que lhes permitam ser o que não escolheram, por um acidente de percurso que pode ser tão trivial como um simples azar no professor da disciplina de matemática, acompanhado de uma limitação financeira familiar, para pagar uma explicação. O país une-se em perfeita junção para acompanhar os casos de sucesso, mas nem olha para os que ficam pelo caminho, e nem sequer para o processamento interno dos que alcançam o objectivo, à custa de uma saúde mental que deveríamos incentivar, e não colocar à prova em idades onde o sonho ainda deveria comandar a vida. Deixo os meus parabéns a todos os que conseguem caminhar. De frente, de costas, devagar ou depressa, e deixo também os meus parabéns aos que acabam arredados do processo, ainda antes dele arrancar. Louvo que consigam adaptar-se, arranhar soluções, perseguir indefinidamente o que ambicionam, cair e levantarem-se. Se tudo isto faz parte da vida, faz. Mas a desigualdade que este sistema permite, e o caminho onde desagua, não favorece, de forma alguma, um caminho de sucesso na evolução e na construção de melhores profissionais. A educação, a base de todo o ser humano, continua a ser para quem pode tê-la. Um sinal claro de um mundo sub-desenvolvido, de onde tão cedo não iremos sair. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Feira


Aqui, ao longe, quase sinto o cheiro da cebola, da feira da minha terra. Gosto de feiras. Movimento-me bem nas bancas de roupas duvidosas, intercaladas com legumes frescos, malas de contrabando e lingerie cor de rosa a um euro. Acabo sempre por encontrar umas boas bagatelas, quanto mais não seja um lenço colorido a imitar seda selvagem, só perceptível ao toque, como tanta outra falsidade. Mas as feiras da minha terra, há muito que perderam o encanto. Misturam por ora, sem graça e sem arte, o aroma do campo e da simplicidade, com o odor cansado da presunção. No mesmo espaço, chocalha a tradição perfumada, com uma modernidade indefinida, um misto de lugar nenhum, onde o que era já não existe, e o que se ambiciona, parece não se encontrar. Vejo tantos territórios destes, que invariavelmente ficam pelo caminho. As feiras da minha terra mereciam um outro destino, mais original, mais honesto, como o grito longo do pregão. Não mereciam morrer de solidão, entregues a quem não sabe cuidar delas, e que as roubam à sua própria individualidade.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ruído

O mundo está cheio de pessoas que buscam paz interior a custo relativamente reduzido. Há muito tempo que existem, deverá por certo constar de um cardápio socialmente bem conseguido, um guião de bem-fazer, almejado por quem ambiciona para todo o sempre, um lugar cativo no céu. Privar com os que necessitam de ajuda deve fazer parte dos requisitos de quem se encontra numa extrema direita, mas com emoções popularuchas, quem sabe, de extrema esquerda. E não se vão de modas, claro. Participam em peditórios do banco alimentar, que independentemente do destino, serve um propósito nobre. Reservam uns dias de férias para integrar projectos da igreja direccionados a população carenciada, de dinheiro e de afectos, entre outras iniciativas, que permitem em tempo definido e com fim à vista, apaziguar o corpo pecador, e dar ao espírito um síndrome de dever cumprido, obrigada e até para o ano. Não tenho certamente nada contra, permito-me a mim própria à simplicidade da observação. Do teatro dos que a estes préstimos se propõem, em nome da "solidariedade", quando comparados com o verdadeiro auxilio ao próximo, pelo próximo, e não por um lugarzinho no céu. São tão fáceis de distinguir entre os dois. Enquanto um é governado pelo medo, o outro é pela generosidade. Enquanto um se entrega à fraqueza, o outro entrega-se à nobreza. Enquanto um adensa a diferença, o outro apela à semelhança. Enquanto um caminha na direcção da solidão, o outro retrata a grandeza da evolução.

Enquanto um é barulhento, o outro é silencioso.

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