domingo, 7 de agosto de 2011

As flores




Hoje resolveu agradecer às flores. Às plantas que lhe sobem a escada, garante, que nem bem sabe o porquê de nunca se terem murchado, que as pobres, são sabedoras de amarguras sem fim, nascidas daquela boca que não sorri, mas que se lamenta, como se mais nada de lá pudesse sair. Algumas vezes, chega a história a chegar bisada, que lá dentro do seu corpo, torna-se grande de mais, e precisa de escapulir-se para fora, uma e outra vez, por mor de encontrar o tal do poiso sadio, capaz de arrumar de vez, ou até, quiçá, apanhar também tal moléstia. Nunca aconteceu. São fortes as flores, por frágeis que pareçam. Sabem das noites sozinha, das agressões verbais, do desamor constante, que lhe doí mais do que qualquer outra dor infligida por este mundo cruel, capaz de a molestar com imensas, como se nada mais tivesse para lhe dar. Para ela, escolheu aquela, o desamor, uma das piores, retirando, obviamente, desgraças mais importantes. Logo quando nasceu, foi a ela condenada, quem sabe se terá sido porque veio ao mundo em dia de azares, e se tal facto se vier um dia a comprovar, conclui que bastariam umas escassas horas para saltar para o seguinte, não deixando por isso de ser tal facto, detentor de um carácter irreversível, pelo que em nada, nunca, e em tempo algum, poderá haver alteração para isso. Sua mãe dispôs-se a deixa-la com uma avó, enquanto lutava pela vida, esquecendo porém, que mais uma dessas preciosidades dela dependia, e que enquanto lutava por vencimento da sua, se desleixava no triunfo da outra, pobre enjeitada e desamada, logo ali. A velha fez o que lhe estava ao alcance, naquela aldeia parida no meio de nenhures, fez questão de a levar à escola, de lhe ensinar lavores de bordadeira, as lidas da casa, as rondas dos dias. Tudo isso, debaixo de um amor seco e distante, de um cuidar o essencial sem entrar porém no ser, quase parecendo que tinha aprendido tal arte num qualquer livro de ensinamentos rectos e precisos, onde as funções se faziam sem recurso ao coração. Conheço muitos casos assim. Não os percebo, embora me esforce, que gosto de entendimentos. Gente que ama à medida, num sentimento pouco esbanjado, nuns afagos de hora marcada, nuns carinhos medidos a tostão. Tudo quanto exceda o que se deve, poderá ter um qualquer efeito adverso, algum excesso, como se no amor, pudessem haver demasias. Talvez seja aí e em nada mais, que todo e qualquer sobejo se sorve a gosto, se arruma e se destila em doçura, em corpos que crescem amados e desejados, e que daí, só darão isso mesmo. Não sabe o que isso é, que a única sabedoria que detém é a da falta, pelo que iniciou cedo o processo de arrumo ao seu. De resto, que mais fazer-lhe, se a envolta dele não vivia, por que raio haveria ela de o necessitar um dia, se a única coisa que de lá lhe advinha, eram sofrimentos, quando a ele se rendia. Quase conseguiu até ao dia em que foi mãe, coisa que veio, por certo, para lhe arrancar do peito o tal órgão, e deixa-lo de novo entregue à mercê da vida, sem qualquer hipótese de negação. Afinal, ainda existia. Por muito que o passado o tenha encolhido, o tenha apertado nos ossos até já não o sentir, o malvado enjeitado tinha poderes sem fim, e acendeu-se-lhe com uma força bruta e destemida, muito direccionada. A partir dali, e durante muito tempo, sentiu o amor do filho como mais nada, e entregou-se-lhe desmedidamente, quase como se no mundo, mais nada houvesse para além daquela querença, sagrada, divina, perfeita, que lhe chegou para dourar os dias, anos a fio. Pudesse ela ter travado a vida, conseguisse ela ter-lhe acrescentado, os dias do crescimento, e não lhe teria permitido um desapego tão rápido, que num ápice, lhe voou. Já não se encontra ao de perto, é isso, para que lhe passe as camisas, lhe prepare as torradas, lhe abra a cama ao anoitecer, e este cuidado que lhe fazia, deixaram-na enfraquecida, que por vezes, nem bem se percebe, que quem muito cuida alguém, é a si que cuida e a mais ninguém. Ficou então no vazio, sem direcção em quem se dar, sem regressos por receber, sem lugares para se deixar sentir.


Foi nesse dia que plantou as flores.

1 comentário:

  1. :):):):) "...quem muito cuida alguém, é a si que cuida e a mais ninguém." :):) Olha, nem sei que te diga, a não ser talvez que nada do que aqui escreveste me é estranho e que tudo isso é fruto de uma educação recatada, de outros tempos, em que a censura não permitia aos povos manifestarem o ser.
    Não conheço ninguém que consiga prender tanto ao longo de parágrafos tão grandes, como tu :):)

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