segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Férias

Eram férias. Todos os dias pela manhã, rumavam as duas para o telheiro, muito velho e descaído, que guardava o tanque da água, diversos utensílios que serviam a horta, carregadinha de batatas e abóboras compridas e doces, os aranhões gordos que habitavam nos buracos da parede, e o baloiço de corda e madeira escura. Dependurado nas vigas grossas e redondas, muito carunchosas, o pobre abanava de cada puxo toda a estrutura, deixando antever uma desgraça iminente, daquelas que hoje constituiria sério perigo, mas que antigamente, parecia nem se ver, a par e a passo com as brincadeiras na estrada, em cima de paletes de tábuas quadradas, e junto de poços de água, redondos e fundos, onde as pedras faziam plooc, e os sapos croaac. Era frequente o dia ser passado naquilo, provavelmente intercalado com um passeio de bicicleta, ou até, e em dias de sorte, na carroça do burro do Tio Zé Pio, um homem velho e grisalho, muito gordo e paciente, que se fazia acompanhar de sua esposa, a Dona Ana, atamancada invariavelmente em lenços cinzentos atados no pescoço, que afagavam a bata florida que terminava exactamente ali, no cimo das costas. As golas eram assim presas com força, não fosse entrar alguma ponta de ar destemida, que penetrasse por baixo da roupa e lhe entrasse para o corpo, coisa essa capaz de a levar à cama, por mor de uma pneumonia. No quintal deles, existia uma pequena talha de cimento, com água até ao cimo, onde centenas de girinos nadavam, mesmo ao lado do forno do pão. Num enorme alguidar de barro, o amasso era feito a preceito, para logo depois, entrar para dentro daquele forno encardido e com cheiro a fumo, que nos trazia cá para fora, em lugar da massa crua que engolia, um pão macio e gostoso, que era barrado logo ali com manteiga primor.

O meu filho, nunca andou num baloiço de madeira, nem viu pão a sair do forno. Já viu burros, mas nunca andou de carroça. Não anda perdido no meio do batatal, nem tampouco viu girinos. Viu outras coisas, claro, que espero, honestamente, lhe compensem isto tudo. É que era tanto.

1 comentário:

  1. Sinceramente não sei se haverá leis de compensação neste caso. A sua narrativa, que também vivi abundantemente na juventude, talvez já seja datada e em muitos poucos sítios ainda se possa presenciar a confecção da massa em forno de lenha, o emergir dos girinos aos primeiros raios de sol da primavera ou o baloiço de tábuas no telheiro. Tudo aquilo era natural na ruralidade do nosso país. Agora há recriações um tanto ao quanto artificiais (casas de turismo rural, quinta pedagógica e - novidade! - montes de "safaris" no Alentejo. Tudo pago, claro. Outros tempos em que o próprio passar do tempo tinha outra cadência. Para o bem e para o mal, mas sem substituições.

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