quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Felizes para sempre?

Todos os dias se encontram de manhã cedo, enquanto tomam o pequeno almoço, e despacham as crianças para a escola. O beijo da despedida é seco e frio, poderia até nem existir, mas tornou-se num hábito, igualzinho a lavar os dentes, ou qualquer um outro ritual de higiene diária, que a não ser cumprido, deixa uma qualquer estranheza no corpo, como que um amargo de boca, assim suplantado, sem esforços de maior para ambas as partes. O dia corre normal. Entre as decisões de quem leva e quem trás os filhos, entre o que se precisa de trazer do super mercado, entre o que se janta e onde. Em dias de festa, fins de semana, ou qualquer um outro acontecimento social de relevo para ambos, jantam fora, normalmente com alguns amigos que apreciam a companhia amena, correcta por assim dizer. Não existem trocas de impropérios, palavras altas ou outras situações dignas de preocupação, que a indiferença, quando entranhada, é fácil de lidar. É limpa, por assim dizer, que não deixa azo a emoções. São um casal simpático, ouvem dizer, com filhos maravilhosos. À noite, e logo após o sossego das crianças, ficam na sala, cada um no seu espaço, pouco tempo, imediatamente antes de um deles se retirar, para se deitar no quarto, em frente à televisão, na procura desenfreada de algo que o entretenha, mais do que aquela presença que apenas ocupa lugar. Porque há gente, que apenas parece ocupar lugares em espaço. Adormecem, e na manha seguinte, invariavelmente, começa um outro dia em que tudo se repete, mais coisa, menos coisa. Existem vidas cheias de nada. E existem gentes que se desperdiçam nelas. Ignorantes que estão de que um dia, os nadas lhe vão entrar pelo corpo dentro, ocupar o devido lugar que lhes está destinado, e deixa-los vazios de tudo. Em vidas ausentes esse dia surge sempre. Umas vezes cedo, muitas vezes tarde. Tenho medo de vidas ausentes. Mais do que da minha mania de me encher comigo mesma.

2 comentários:

  1. Não se sinta só, já somos 6 a temer a mesma coisa. Cinco daqui e você aí. Acho que mais pensam assim, entretanto não lhes é permitido conhecer a ausência.

    5 bjs das cozinheiras

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  2. Um pouco na linha do tema "Quotidiano" do Chico Buarque..

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