segunda-feira, 15 de abril de 2013

hereditariedades

Os cafés da manhã são usualmente de pé. Por isso oiço bem, demasiadamente bem, especialmente quando as pessoas luxuosamente sentadas elevam o som das falas que sobem até aos meus ouvidos, pobres deles, em franco anseio por silêncio. Hoje é segunda feira, com manhã guardada para um despertar tranquilo. Mas é especialmente neste dia, que nunca posso ousar sentar-me. Entraria sem demora em modo de descanso, julgar-me-ia eventualmente em fim de semana prolongado com direito a pastel de nata e a jornal, quem sabe a laranja espremida na hora, cenário demasiado ocioso para quem só pára pelas vinte e uma, se a sorte andar de feição. Resta-me a bica, e que se me abram os olhos. Na mesa mesmo atrás, debatia-se a criança que só faz o que quer, devidamente acomodada pela hereditariedade recebida do avô. O assunto referia os deveres, só executados quando a disposição a isso se propõe, e nunca quando a mãe manda a tarefa. -Vai fazer os deveres, filha. - Não vou!, era o discurso sorridente da senhora, orgulhosa do génio da sua filha, vindo algures já de há uns oitenta anos, saltando corpos, sem hipóteses de morte matada de vez. Só faz quando quer, e não vale a pena teimar com ela, que na insistência nunca obedece, rematou. Estive quase a voltar-me e a lançar umas questões para o ar, poderia haver na mesa algum interessado em responder-me, ficar-lhe-ia eternamente agradecida. Intriga-me por exemplo o que irá a moça fazer daqui a uns bons anos, quando ao corpo não apetecer a imposição da obrigação, e tiver de levantar-se às segundas feiras pela manhã. Não o fará? Irá fazê-lo somente à terça, dia em que a segunda já passou, ou prolongará o descanso até à quarta, meio da semana, excelente dia para começar? Saí do estabelecimento significativamente mais acordada, é um facto. Tudo tem um sentido prático, e eu precisava de um ânimo espicaçado que me transportasse até algum lado que não aquele, ronceiro, contagioso. Assim ao menos, fiz-me acompanhar de pensamentos acesos, ainda que o corpo persistisse em vergar ao vagar. Mães que têm filhas desobedientes são um problema quase sério.  Mais sério, são mães que têm filhas desobedientes e que atribuem essa mesma desobediência unicamente à genética. Culminando no problema seríssimo, guardado para as que ainda se orgulham do génio herdado das criancinhas. Não há nada a fazer, foi a frase que guardei comigo, enquanto pensava para dentro que de facto não havia: hoje é segunda feira e eu tenho de ir trabalhar; a hereditariedade que me guardava os caprichos, asseguro-vos, morreu nova ou não sei dela.

8 comentários:

  1. O que é mais sério, CF, é que tenho tido grandes discussões com pessoas responsáveis - pediatras, inclusivé - que consideram os deveres um pecado mortal pelo qual os prfs deveriam ser condenados ao inferno.
    Coitadinhas das crianças a terem de fazer deveres depois dum dia de escola! Como se não fosse importante a criança testar-se a si própria e exercitar sozinha aquilo que aprendeu em colectivo.

    Não quer fazer...porque de certeza, não terá castigo nenhum... nem em casa, nem na escola.....voila!!

    Bjinho

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    1. Pois é Virgínia, também já assisti a diversas discussões sobre o tema. Há uma divisão considerável de opiniões. A questão do teste e do treino individual, é sem dúvida de extrema importância. Tal como é importantíssima a questão da responsabilização e da regra, coisa que me parece haver cada vez menos por aí. Preocupa-me, ó, se me preocupa...

      Um beijinho. É muito bem vinda. :)

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  2. Que saudades de ler os teus posts CF.Só hoje ao vir aqui me dei conta disso. :)
    Sandra Blog with a view

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    1. Sandra, há tanto tempo que não te sentia aqui. Gosto, olha, gosto muito. :) Como estás, conta... O blog, é para renascer? Anda, força nisso. Tenho saudades. Acho que foi lá que passei a adorar Snow Patrol... :)

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  3. Não há da a fazer??? Há, sim. Tudo, menos não fazer nada, do estilo - é o destino. Mas não é. É a teoria do caos.

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    1. O maior problema, é que eu acho que estas pessoas acreditam convictamente nas suas teorias. Por serem fáceis, eventualmente...

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  4. Um dia, quem sabe já hoje, muita gente já nem sabe o que é um Dever, quanto mais uma obrigação... É o culto do facilitismo pensando que é idêntico a descomplicar :(

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    1. Pois é Paulo. O problema, o que me assusta, são as consequências. A médio e longo prazo. Não gosto de previsões excessivas, mas creio que em termos sociais, as coisas vão complicar-se, e não descomplicar...

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