sexta-feira, 19 de abril de 2013

nos meus sonhos, mando eu

Não sou comedida quando sonho. Sonhar é alto, que quando assim não é escuso-me ao trabalho da imaginação e concretizo. Faço, aconteço. Imaginar dá trabalho, convenhamos, e traz alguma impaciência, uma ânsia miudinha de quem espera uma coisa que pode nunca acontecer. Tal estado de ânimo merece portanto excessos e desmandos do corpo. Já que não fora, ao menos dentro. Não costumo ser parca nos sonhos, já disse. Irrita-me seriamente quem sonha  com um colar de pérolas falsas ou com a tibieza de um afago frio, e dou-me a mim mesma o direito de não considerar grandemente a questão da contingência e da condicionalidade. Isso temos todos, ora, mesmo antes do sonho e da idealização. Se é para nos reduzirem no campo do devaneio, escusamos o dito e trabalhamos com vigor a circunstância, com sorte as impossibilidades caem-nos no colo, com azar, não. Também não aprecio as teorias que afirmam peremptoriamente que sonhar muito alto nos coloca sujeitos à desilusão. A vida encarrega-se sempre de nos malograr o corpo, ainda que com as realidades certinhas e pequeninas, mesmo aqui do lado. Não frustro apenas porque ainda não fui à lua, acreditem, posso muito bem iludir-me com outras realidades banais. E desiludir-me logo a seguir, é a vida. Portanto, prefiro dar-me a esse luxo, aceitem por favor a perspectiva. Gosto particularmente de impossíveis ou quase. Os impossíveis ou quase permitem-nos uma projecção idílica do melhor que pode haver. Não me digam, estão terminantemente proibidos de me dizer, que eu não vou voar num tapete. Tal como estão proibidos de me aclarar as ideias quanto à possibilidade de um dia eu ser organizada ao ponto de saber exactamente onde estão todos os papéis quando chega a data da entrega do IRS. Isso vai acontecer-me, creiam nisso. Este pode até parecer um sonho pequenino e menor, mas olhem que não. É um sonho significativo, pela exigência que me acarta, mesmo que apenas cá dentro, em projecção. Dos impossíveis, diria até. Não é fácil a organização de um sonho, por certo concordam comigo. A organização de um sonho pressupõe princípio meio e fim, sob pena de o mesmo não assumir consistência digna do nome. Não devemos começar sonhos sem os acabar. Deixá-los à mercê da ideia vaga, do lugar casual, do vamos a ver. Vamos a ver, coisíssima nenhuma, eu começo e eu acabo, tal e qual eu quero e como eu quero. Nos meus sonhos, nem que só neles, quem manda sou eu. Nos meus sonhos, os papéis do IRS, por exemplo, estão sempre na devida ordem. Por datas e rubricas. Não perdi nem um único recibo verde, declaração de empréstimo, de renda ou de vencimento. A pasta, discreta, está devidamente acondicionada na secretária da sala, e é entregue ao contabilista muitos dias antes do prazo final. A simulação é feita prontamente e fico logo a saber que recebo o suficiente para ir de férias, com um dinheiro devolvido a horas pelo estado. Tenho destino e companhia e o que ainda me falta é cá comigo. É a parte que eu sonho num sonho muito maior.

6 comentários:

  1. Mal de nós se não mandássemos nos nossos próprios sonho, se bem que esse de receber o reembolso do IRS seja de facto o extremo da ousadia... :(

    Beijos,

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    1. O extremo da ousadia são outros voos, Paulo. Esse, do IRS, é um sonho menor...

      Beijos...

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    2. Não. Hoje em dia, receber dinheiro do Estado, é um sonho imenso, maior que o Euromilhões.

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    3. Eu sonho em grande, já sabes :) Nisso e no resto...

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  2. Estou contigo :) isso de sonhar pequenino é tacanhez :(

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    1. É, não é? Ao menos em sonhos, sonharmos o que nos apetece... :)

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