domingo, 7 de abril de 2013

seriam loucos?

A excepção merece sempre o realce, por ser excepção. É por isso que também a loucura ocupa sítios em filmes, em livros e em vidas, e quase todos gostamos de a ver, de a ler e de a tentar perceber à luz do que os olhos nos vêm rectilíneos, nas inclinações dos costumes. Quem levanta, vive, dorme e sonha, sem que para isso extravie, não tem direito a história visível. Concebo perfeitamente, eu própria me encanto com diferenças e desajustamentos, sendo porém terrenos delicados pela tenuidade das linhas que regulamentam normalidades. Existem desfasamentos devidamente contextualizados, perfeitamente adaptáveis à raça humana, sem que o sejam porém na sua completa abrangência. Serão aqui, não acolá, o que é por si só uma delicia. Nada é mais cómodo do que sentirmos a possibilidade de sermos praticamente tudo em algum sítio, nem que seja um sítio quase deserto de gente. Divago após o conhecimento de que colocaram o Senhor do Adeus em estória. Já o haviam cantado em música, devidamente interpretada, melodiosa, ritmada, em homenagem, nada a opor. Dizia adeus no Saldanha, Seria louco?
Um louco simpático, e por outro lado, cativa sempre multidões. Lembro Géninho, o louco cá da terra, que há-os sempre e em qualquer lugar. Oferece flores às mulheres a quem pergunta pelo marido e pelos filhos, na porta do talho, no largo das estátuas e das senhoras de cabelo armado a toucador, ao Sábado de manhã, antes ou depois da praça do peixe. Todas se deliciam perante a gentileza tacanha enquadrada num nariz torto e num semblante contente, sempre igual. Nunca fez mal a ninguém. Que se saiba. Será louco?
Depois existem outros eventualmente mais preocupantes do que o homem que sorri a quem passa. A inofensividade da loucura servirá eventualmente para enquadrá-la aos nossos olhos. Uma loucura boa é diferente de uma loucura má. Uma loucura boa pode ser aceite, ainda que louca, uma loucura má pode ser perigosa. Lembram-se desta? Será loucura?
Até que ponto a essência da bondade poderá ser perpetuada na existência e até à morte, sem que os desfasamentos virem direcções, é uma questão importante. De resto, alia-se a loucuras menores, ou seja, a todos nós e consequentes percursos. O Homem do Saldanha, entre outros, morreu no auge da sua simpatia. Tivesse ele enlouquecido mais qualquer coisa, e poderia ter sido agrilhoado. Tivesse perdido a interacção, e teria sido eventualmente esquecido. Realmente solitário, certamente nem teria sido louco. Dizer adeus a quem passava deveria esconder uma história que ninguém conhece. Quem sabe entregue a tristezas engolidas num braço que se levantava mais à noite, porque o dia fazia doer. Todos retribuíam, ele era bom, só era louco.
Uns dias depois da sua morte uniram-se multidões para dizer adeus a quem passava na praça do Saldanha. Seriam loucos? 

(Reservei-me no direito de não colocar comas. Seriam imensas, aqui e ali. Por certo perceberam que as considero perfeitamente empregues, pelo que as imaginem em cada uma das loucuras que descrevo no texto. Quanto ao estranho hábito de homenagearmos e considerarmos grandes loucos, só depois deles morrerem, vou-me abster de comentar. Parece-me qualquer coisa próxima de loucura.) 

6 comentários:

  1. Bom, de médicos e de loucos, todos temos um pouco. :) :) Já lá vai o tempo em que se encarceravam os leprosos e outras vítimas de doenças contagiosas e incuráveis, e os loucos caminhavam pelas ruas, confraternizavam com a sociedade e nunca saiam de casa da família. Quando os leprosos, e outros que tais, desapareceram, começámos a internar os diferentes, afirmando que a sua loucura é prejudicial para o normal funcionamento desta coisa a que chamamos sociedade. Cá para mim é tudo uma questão de moda! :) :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Temos. Mais de loucos do que de médicos, diria eu :), muito embora todos queiramos achar o contrário...

      Eliminar
  2. não se pode colocar tudo no mesmo saco, e rotular de loucos.
    depois há a questão dos limites. toquei uns 2 anos com alguém a quem chamavam de louco e ao mesmo tempo de génio...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas Sputnick, os génios são normalmente loucos. Certo?

      O conceito é delicado, é o que eu acho... E nós, humanos, temos uma certa dificuldade em lidar com delicadezas...

      Eliminar
  3. Sinceramente? Não sei se é boa ideia falar em loucura, em bondade e em maldade no mesmo post. No fundo não concebo nenhum dos três na sua respectiva plenitude, ou seja, ´não há bondade pura, maldade pura, loucura pura (dizem que esta última nem existe). Há coisas que nos agradam, outras que não e depois há as outras, as excêntricas, as loucas.

    Bjo

    ResponderEliminar
  4. Nada no Homem existe em estado puro. O que eu quis aqui deixar foi simplesmente um registo disso mesmo. Sinto muitas vezes que maldade e loucura convergem, não se sabendo realmente quando uma e quando outra. O "louco" simpático, por outro lado, é por norma aceite, por vezes até protegido. Não quis tirar conclusão alguma, só mesmo reforçar a nossa relatividade aliada à necessidade de rotular tudo quanto nos acontece.

    Beijinho

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores