terça-feira, 23 de abril de 2013

pés

Do que eu mais gosto nesta época do ano, é dos dias que me permitem mostrar os pés. Os pés são a parte do corpo que matamos no Inverno em meias e botas quentes, quase esquecendo a calzedonia ou a omsa, dependendo do gosto ou do local de residência, entre outras várias questões. O Sr. Zé dos três balcões, por exemplo, serve de meias e com preceito algumas senhoras da minha cidade, da liga de elástico abaixo do joelho, sabe lá ele o que é a liga de renda abaixo da coxa. E se souber, não o diz  ninguém, é o seu segredo, guardado a sete chaves da mulher que costura por trás de uma cortina baça e cinzenta, através da qual espreita a clientela diversa. As de mousse ainda se vendem, diz, mas são as de vidro que fazem as delicias da perna mais fina, da saia mais curta, do vestidito florido a pincel de cores vivas que ornamentam uma sociedade decadente, já sem recantos ou pastelarias, sequer  chafarizes de água corrente. Nasceram alguns ainda agora, vindos de parte incerta, secos, vazios, mais ou menos como as pernas das velhas que repuxam as meias com as unhas, pele afora, até aos ossos esquisitos do joelho. Não tenho medo nenhum de libertar os pés ao fresco ar primaveril, dizia eu. Não me inquieta minimamente soltá-los em sandálias de salto que me deixem espreitar as unhas encarnadas da cor do sangue ou azuladas da cor do céu, arrisco até um laranja cor de citrino ou um coral que faz um pendant descomunal com o meu vestido curto, o único que  me deixa mostrar as pernas. É que estas, por sua vez, merecem recato. Costumo guardá-las até lá mais para o verão, escondidas em tecidos leves e esvoaçantes, sem deixar às vistas a sua pose magricela e desajeitada, visão só justificada com os quarenta graus do verão e nunca antes, por mais coisíssima nenhuma. Um dia destes, lá para Agosto, vou colocá-lo no corpo mais uma vez. Obviamente com umas meias, umas sandálias de salto fino e um lenço doirado ao pescoço, que enfeitarão a volta pela cidade, sem destino, eventualmente com direito a passagem na loja do Sr. Zé. O Sr. Zé merece a distracção  de tentar concluir onde compro e onde acabam as meias enfeitadas que me sobem pernas acima, sem pontas escuras, a deixarem antever o verniz colorido e curioso que quase toca o chão na minha passagem, descontraída, no fim de uma tarde de verão. Costuma sempre sorrir a quem passa, uma simpatia. E faz  uma vénia, o que convenhamos, é uma coisa quase tão antiga como as ligas de elástico, os três balcões da sua loja, a cortina que esconde, a mulher que costura e o divertimento da imaginação farta e pródiga, daquilo que não conseguimos ver com os olhos.

4 comentários:

  1. Tenho a sensação que esse tal de Sr. Zé fica de olhos esbugalhados, fora das órbitas e colados às lentes dos óculos, por cada vez que te vê passar...

    Mas isto é só imaginação :)

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    1. Ainda gostava de saber como é que tu sabes que o Sr Zé tem óculos. Já sei: Imaginaste... Boa. Tens razão... :))))

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  2. :):):) vai-se a ver e o Paulo tem razão :) :)

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    1. :) O Paulo tem é uma grande imaginação, isso é que é... :))

      Beijinho

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