sábado, 12 de novembro de 2011

Autoridade

Todos os dias, talvez salpicados de uma ou outra excepção, ocorrida normalmente em ocasiões de chuva intensa, que poderá inundar o caminho, e deixa-lo apeado em qualquer curva da estrada, muito deserta e sinuosa, aparece. Traz uns óculos de aro elegantes, uma boina a aconchegar-lhe a cabeça, um casaco de agasalho, que agora já se faz sentir frio, uns dias um sorriso. Deixou-a lá há um ano, mais coisa, menos coisa, e desde aí que vive sozinho na casa alugada que partilharam toda a vida, situada ali para o lado das Portas do Sol, o jardim mais lindo da cidade velha. Do que recebe faz uma gestão cuidada, cozinhando com muita atenção exactamente o que lhe faz falta. Uma carne guisada ao Domingo, que chega a Segunda ainda fresca, um empadão à Terça, realizado com os restos que chega para o dia, uma sopa na Quarta, que se estende a Quinta, e por aí fora. No mesmo corpo faz uma mistura intrigante de mau e de bom, chegando ali amiúde inundado de boa disposição, capaz de virar o espírito na mais pequena contrariedade. Sempre foi assim, diz-me ela, muito baixinho para ninguém ouvir. Vá lá ele saber que ela disse tal coisa, e poderá até castigá-la, ela sabe disso, deixando por tempos de vir visitá-la, ou de lhe trazer as broas com água pé, os celestes doces, ou os arrepiados de amêndoa. Até porque, e do lado de lá, ninguém mais chega, senão aquele ser alto e esguio, seu marido, como afirma ela, ainda feliz. De vez em quando, quando ele vem bem disposto. Ontem trazia um saco de castanhas assadas, e uma pequena quantidade de costeletas de borrego guisadas, muito cheirosas. Ela gosta, diz-me entre dentes, e entra. A velha, na hora do jantar, sorri perante o pitéu, depositado no prato, rematado com uma sobremesa de castanha assada, já descascada, que a mão está ferida e encarquilhada. Não deseja ficar connosco?, ainda arrisco, sabendo a resposta. Não deseja, que a fazê-lo, teria de chegar a casa já noite escura, e não lhe seria possível arrumar o carro na garagem. Um problema, que em seu direito não deseja enfrentar. Bateu a porta e saiu. Prometeu para hoje uns sonhos fritos e doces. Ela sorri, e fica, em silêncio, à espera.

Encontro naquele homem o protótipo antigo da autoridade e do cuidado. Rigoroso ao extremo nas execuções do seu dia, que lhe faz falta essa postura para sentir segurança. Há muito que não via um exemplar tão fiel.

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