terça-feira, 1 de novembro de 2011

A carreta

Ali naquele sítio ainda se enterra a gente quando esta morre. Não existem cá aquelas modernices dos fornos que desaparecem com qualquer resto que possa haver do que já foi pessoa. Ali, rezasse de joelhos perante um cubo de mármore branco, muito arranjado e carregadinho de flores. Nas lápides estão dizeres escritos por quem cá fica, e que assim presta uma homenagem sentida, um louvor, um sentimento. O carreiro que lá chega é de terra batida, e o portão, de ferro forjado, encontrasse fechado a sete chaves, que o local é santo, e deve apenas ser procurado por gente de bem, que a querer fazê-lo, seja para reza, ou para o zelo da campa, deverá solicitar a chave a Dona Emília, fiel guardadora dos mortos desde há muito. Quando também ela morrer, quando passar para o lá de lá do portão, e para debaixo do chão, coberta de dizeres e de santos imaculados, algum outro depositário se deverá encontrar. Provavelmente, nem será fácil, que nas imediações do cemitério, nem residem já muitas gentes desocupadas, a não ser, claro está, alguns velhos, também eles já sérios candidatos à entrada, e não à guarda.
Mesmo ao lado do cemitério, existe uma pequena casa, onde o coveiro guarda todos os utensílios necessários ao enterro dos mortos, pás, baldes, e outros instrumentos. Para além disso, existia já de há muito uma carreta, que para quem não sabe, se trata de um pequeno carro de madeira, conduzido à mão, com a serventia de executar o trajecto que vai do carro fúnebre até ao buraco. Essa carreta, velha e carunchosa, foi restaurada. Uma alma benemérita da terra, achou por bem arranja-la, poli-la, e trazê-la de novo à luz do dia, que há muito não saía do seu local de armazenamento, por falta de préstimo e apresentação. A partir de hoje, a carreta irá de novo servir o povo, e permitir o descanso dos braços daqueles que levavam o caixão até ao seu destino final. Nas paredes do cemitério, sobem saramantigas e outros bichos medonhos, mas o dia foi bem escolhido, estava sol. A cerimónia tinha uma fita que foi cortada por Dona Emília, a senhora das chaves. A partir de hoje, pode-se voltar a morrer ali, sem pesar à população.

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