segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vidas

Chamemos-lhe Maria, que é um nome único e do povo, um nome doce, que serve sempre, até para chamar quem se desconhece. Pode até ser que o seja verdadeiramente, mas disso, não vos dou conta. É uma entre outras das que por cá andam a ensinar quem queira aprender. Porque acredito que exista gente que cá vem com o intuito de ensinar os outros, tal a grandeza de alma que se lhe assiste. Maria é uma delas. Mãe de uns poucos de filhos, dois dos quais a habitar lá em casa, em conjunto com o cão Jardel, um pequeno animal que a segue para todo o lado, seja o local de trabalho fixo, seja o local onde trabalha à hora, seja o coro onde canta, nos míseros minutos que lhe sobram do dia. Por vezes, chega a levar a roupa do espectáculo logo pela manhã, dentro de um saco, para que a muda se efective em lugar que dê, que o dia não lhe chega para passar por casa outra vez, entre a manhã de um lado e a tarde do outro, os tempos de troca são corridos e fugidios. É perita em coretos e orgulha-se de já ter cantado nos melhores da região. Eu, não percebo nada de coretos. Sei apenas tratar-se de uma construção redonda, onde os músicos se empoleiram para deixar correr as cordas, as notas as vozes, enquanto na envolta ouvidos escutam. Certo dia foi ao supermercado, e logo após contar os tostões, acabou por ter de deixar a pasta dos dentes e o líquido da loiça, que mais haveria de ter feito, se no contraponto, estava o feijão para o almoço do neto e dos filhos, que a esperavam em casa. Que se lavem todas as necessidades com líquido do chão. Tudo quanto seja encargos cabem-lhe a ela, que as outras criaturas da casa, filhos, neto e cão, dela dependem, a isso se habituaram. Já a julguei de alguma forma enfraquecida, pouco capaz de tomar decisões em relação a quem nela se dependura, mas os seus olhos vivos, a dizerem-me que de tal destino não consegue fugir, toldaram-me o pensamento, e acabei por passar a julga-la nobre. Às vezes, não muitas, sou susceptível a estes volte faces. Veio cá para servir, trabalhar e cantar, intercalando com sorrisos vindos de uma boca já sem dentes. Outro dia dei-lhe um pão com manteiga, que devorou languidamente, tal e qual como se de um acepipe se tratasse, enquanto a sua boca girava de um lado para o outro, sem dentadura, a tentar dar cabo do dito. Logo após, e de barriga composta, disse-me, às vezes ando com fome. E nisto sorriu.

1 comentário:

  1. Caro Paulo, não publico, a seu pedido, mas agradeço na mesma. Pelo reparo e pelo elogio. Um sorriso :)

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