domingo, 27 de novembro de 2011

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Desce a ladeira com um casaco aos quadrados de agasalho, daqueles feitos de fazenda grosseira, comprado em alguma feira com bancas e montes com roupa. Sempre gostei de feiras com bancas e montes com roupa, onde me perco durante tempos infinitos, vasculhando trapos que nunca compro, ou, se compro, na maioria das vezes nunca visto. O cabelo, um tanto ou quanto enxovalhado, esconde-lhe um rosto sério e macambúzio, descomposto por alguns pêlos inestéticos que o povoam, da parte de cima da boca, nas sobrancelhas, perto das orelhas. Quando me encontra esboça um sorriso desfalecido, arrancado em força ao lugar de onde queriam sair lágrimas. Compreendo-a. Não gosto de choros, já o devem ter percebido, embora não tenha nada contra quem chore. Deixam-me numa angústia extrema, totalmente contrária à libertação que lhe apregoam. Por isso mesmo não choro. Ela olha-me nos olhos, e pergunta-me se fará bem, num interpelo ao meu olhar inquisidor, já antevendo o que ali a trazia. Fico sempre abalada quando sinto nos olhos de quem me procura, perguntas que o próprio não sabe o que responda, sinal mais do que suficiente para que perceba, que também eu não lhe saberei responder. Um aconselhamento, insiste, já sabendo que lho vou negar, pela impossibilidade de lhe dizer o que da minha boca quer ouvir. Senta-se a olhar o vazio do céu, aparentemente expectante de que com os raios do sol, lhe venha também uma qualquer resposta sábia, que não mais desapareça. Sabe que não aguenta esta angústia outra vez. Começa a falar desenfreadamente. Mistura o antes, o agora, o que não sabe se virá ou não. Um misto de sítios muito estranhos, que julgo até serem vindos de mundos diferentes uns dos outros, quem sabe, se de uma outra dimensão. No final da catarse, e já vazia de quase tudo, parece sentir-se mais calma. Precisa de tomar um chá, um café, qualquer coisa que lhe aqueça umas entranhas vazias, cansadas de ventos e espinhos. Bebemos um de menta fresca, no alpendre, e no acalento do adocicado picante, deixa escorrer uma lágrima. Foi do chá...

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