terça-feira, 28 de maio de 2013

a dois

( Elahe Soroushia)

A mulher meneia os cabelos negros por cima de uma mesa de copos embriagados dentro de um corpo qualquer. O homem agarra a cabeça por cima das mãos que lhe seguram o peso da alma em braços, uma vida toda tombada num desalinho enfartado que se entorna pelos olhos que fecham lá dentro o que não pode sair. Um outro toca uma harmónica que encosta aos beiços como quem lambe uma boca desalinhada que é preciso calar. Na sala ouve-se pouco mais do que o embalo do som e da voz e os ecos dos vidros no fundo do bar. A mulher persegue a melodia que acorda até os mortos que já morreram há muito, mas não o homem que dorme a fingir num corpo claro que insiste esconder. A harmónica acelera os acordes que inundam a sala de uma vida esquecida. Os copos regressam cheios do líquido tinto que todos bebem em intervalos iguais, ela canta, ele guarda-se, o outro toca. Na insistência da noite que não amanhecia nunca mais inflamam-se os olhos do homem que espera viver. Crispa a expressão do rosto vazio que deixou há muito num bairro qualquer. Olha para os cabelos pretos da moça que se abana perto e pergunta-lhe para onde vai. Ela responde-lhe que vai cantar enquanto a harmónica tocar e ele quiser. Ele olha para o músico e pede-lhe gentilmente um jazz que combina com o chapéu preto, o fato riscado, com ele e com ela. Esse obedece por simpatia e vontade de ver a melodia cantada por dois. Senta-se num banco alto e olha uma mulher que canta e um homem que vê. Uma música cantada por dois é muito mais do que um par compassado: uma música cantada por dois é um quadro singular de sintonia acolhida de símbolos iguais por corpos distintos e mal acabados para sempre. O Jazz durou exactamente dez minutos. O homem olhou a moça os mesmos dez que ela cantou ao ritmo dos olhos que viam sol. O sol era ela e ele sorriu. O outro calou-se na noite escura que o dia esquecido deixou muito tempo. Ninguém morreu de cansaço.    

4 comentários:

  1. Portanto... temos aqui um ménagem à trois onde um deles contenta-se com a própria harmónica, certo?

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  2. Respostas
    1. Errado: o homem e a harmónica são do quadro, mas no conto serão eventualmente lugares de acção. São dois, Paulo, são sempre só dois. O resto é o resto...

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