sexta-feira, 24 de maio de 2013

dança

Pela janela entreaberta entra-me uma nesga de sol morno que inunda a sala de um ar clandestino que foge por entre as almofadas estendidas sem guarda ou preceito no sofá creme. Envolvo-me num lenço de seda que me acolhe em braços com a cortesia que só a seda e os homens conhecem ao detalhe da importância esquecida por quem não pára para pensar o assunto. O lenço deita-me o cheiro que eu conheço e que se aninha do meu corpo para dentro enquanto descalço os sapatos que abandono com o descuido próprio de quem espera ninguém. Sento-me no chão e procuro um programa que me distraia o espírito e me transporte em viagem que me leve dos dias corridos a historias contadas na primeira pessoa do singular. Cedo ao cansaço que me puxa para dentro do sono e durmo quase sossegada. Acordo num sonho misto de realidades inquietas onde te encontro de imediato na primeira esquina que cruzo. Paras-me, pedes-me que te escute e eu espreito-te com uns olhos que engolem a boca que mexes muito além daquilo que dizes. Insistes na importância da atenção que me fugiu para ti e me deixou num perfeito abandono, e olhas-me numa reprovação crescente que encostas aos gestos que te elevam a altivez a um tecto onde não chego nem em biquinhos dos pés. Insisto em alcançá-la, pequenina, estirando-me altaneira sobre o teu corpo que mantinhas uma distância impossível. - Desculpa-me, mas não ouvi nada, sussurrei-te ao ouvido. Pela primeira vez na nossa existência sinto que não me escutas. Continuas num ritmo frenético a dizer-me o que eu não oiço, só porque só olho e só quero os movimentos que fazes na minha frente, mais perto de mim do que o ar que nos toca insistente as tangentes da pele. De repente irrito-me, e dou-te um beijo. Colo-me no teu corpo e calo-te durante os segundos que antecedem o momento em que substituis o meu lenço pelos teus braços fortes que cedem à imposição da minha língua. Calaste-te, tinhas de calar-te, estava farta de só te ouvir. Dobramos a esquina que tinha ficado esquecida no caminho dos dois e entramos numa porta onde se lia a letras grandes coisíssima nenhuma que se percebesse. Não perdemos tempo, seguimos em frente e subimos as escadas sombrias que nos elevaram a uma casa velha e vazia com uma arca de roupa que sabíamos perfeitamente que estava ali. Sem lenço e sem braços enrolei-me num vestido rodado com folhos de renda e dancei sem fim: tu tinhas pedido. Acordei mais tarde na noite que me entrou fria pela janela da sala. Ouvi um barulho e abri os olhos ainda tontos das voltas do corpo. Mirei-te e balbuciei qualquer coisa a esperar que falasses mas tu ficaste calado. Deste-me um beijo e  roubaste-me o lenço que voou pela nesga levado pelo vento do Inverno que chegou muito cedo. Encosto-me rendida numa pausa da tua boca que me toca insistente da cabeça até aos pés e digo-te: só tu amor, só tu chegas tão tarde.             

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Certíssimo, Paulo. Na vida, muitas vezes, o que tarda chegou na hora exacta.

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    2. Até porque foi um sonho e estes quase nunca são fiáveis...

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