terça-feira, 14 de maio de 2013

(...)

O miúdo sobreviveu aos exames e eu sobrevivi a uma semana maior do que o meu corpo. O meu corpo não chegava só para ela, quanto mais para ele e para os exames dele, quanto mais para os quereres dele, quanto mais para os meus. Um dia esqueci-me de mim e tento sempre que isso não se repita, assim muito à séria, mas a verdade é que se repete todos os dias. Um engano assumidíssimo com custos elevados para os meus quereres, que quase morrem de desgosto, na consumpção do esquecimento. Quase que me morreu o meu querer sair para passear, o meu querer comprar livros para ler até de madrugada, isto porque deixei de querer madrugadas, passei antes a querer dormir sempre que posso e enquanto posso, em horas intercaladas, logo eu que aprecio completar ciclos sem interrupções e sem saltar preciosas fases de sono R.E.M. Passei a comprar só uns poucos para as também poucas férias, que deixaram de ser tranquilas para passarem a ter banhos de água fria de manhã cedo e assim de repente. Uiiii, não funciono nada bem com repentes que envolvam água fria e salpicos salgados com areia incluída. Ainda para mais de manhã cedo. Deveria, eu sei disso, mas que se faça, não funciono. Esses poucos no inicio eram lidos nos intervalos em que a sesta dele me dava uns minutos que eu aproveitava ao instante, poucos segundos até que as letras se começassem a misturar dentro dos olhos, nunca percebi, sei que a seguir adormecia sempre e acabava por não pensar seriamente o assunto. Calculo ser um qualquer fenómeno sem explicação exacta, mas que justifica por exemplo eu ter demorado uns meses a ler a máquina de fazer espanhóis, não mais me esqueço, um livro delicioso de Valter Hugo Mãe que sorvi com extrema parcimónia, não fosse acabar depressa. Sim, deve ter sido também por isso, quero que tenha sido também por isso. Também me esqueci de ir ao cinema e por isso perdi filmes premiados que nunca mais acabam. Às vezes tentava vê-los em DVD, numas noites que pareciam maiores do que as outras, mas que ia-se a ver e afinal tinham o mesmo tamanho. Tinham sempre todas o mesmíssimo tamanho, ou seja, muito pouco tempo. A esplanada foi outro dos esquecimentos. Soa mal vindo de uma senhora, eu sei, mas sabe bem e eu não sou dada a cuidados excessivos com a sonoridade das questões. Não preciso de grandes apanágios, mares ou imperiais com tremoços salgadinhos, nem sequer preciso de sol. Contento-me com a frescura matinal ou de final de dia, desde que o silêncio apareça pelas redondezas dos meus ouvidos e me deixe escutar pouca coisa ou coisa nenhuma, um som raríssimo na minha vida, mas possível, mesmo no meio de gente. Não me incomodam as folhas nem as conversas das senhoras do chá das cinco, mas gritos para que eu compre gelados ou jogue basquetebol sem cesto, são qualquer coisa capaz de me escrutinar o cérebro vezes sem conta e dias a fio. Não me lembro muito bem da cor do silêncio, mas deve ser branco. Há mais coisas que eu estou esquecida, mas vamos ficar por aqui, até porque não pretendo que achem que me lamento, não é o caso, eventualmente precisava de me esvair em letras no meio de horas que me fazem falta ao trabalho que se estendeu noite afora, malvado. Nunca quereria trocar os sentimentos pelos esquecimentos, é somente uma questão de retrospectiva. Os dias deveriam ter mais tempo, será eventualmente a misera verdade que concluo de tanta coisa, e prometo não falar mais no assunto. Umas obrigações a menos, incluindo ainda umas dedicações, que isto de me esquecer que existo levou-me com certeza bocados que não resistiram. Quereria eventualmente um tempo que me permitisse arrumar dentro dele os sentimentos e os esquecimentos que me fizeram falta e que de novo fariam, caso regressasse. É que nunca inverteria o ciclo de prioridades, vividas em sua época, e continuadas hoje em dia. Gostaria ainda que me deixassem dormir os vinte seis minutos que a NASA recomendou ainda ontem. Desculpem-me mas isto é importante, foi a NASA que disse. Vinte seis minutos por dia, nem que fossem só mais esses. Vinte seis minutos por dia, é o que mais falta me fazia, por volta das catorze, se houvesse o direito à opção. E se eu não dormisse lia um livro ou escutava o silêncio, ou então andava de bicicleta a pedais ou cheirava papoilas ao sol. Ou fazia qualquer outra coisa, que o tempo quanto mais há mais nos desaparece da frente dos olhos que o cobiçam por entre as frestas do tanto que queremos fazer. Podia também jogar basquetebol com o meu filho ou lamber um gelado de pau, enquanto ele me pergunta perguntas de história de Portugal e se indigna com a minha ignorância. E  podia ainda namorar, faz-me tanta falta tempo para namorar. Devagar e em silêncio.

4 comentários:

  1. Ai, ai, como me revejo no seu texto!!! Um tempo sem tempo, é que era, devagar e em silêncio!!

    Já sou fã...

    Bj.

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    Respostas
    1. :) Era, não era Paula? Saberíamos nós vivê-lo??...

      Beijinhos

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    2. Pois, também acho que não saberíamos, esse é o problema! "Espreite" o meu blog... será um gosto tê-la lá! agridoceedoce@blogspot.com

      Beijinhos!

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    3. Espreito, claro. :) Já tinha procurado de onde viria, mas só encontrava um perfil no google+...

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