segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Vidas assim

O Senhor J teve um acidente de trabalho. Coisa séria, de limitação permanente, sendo que a adaptação a uma nova vida sem braço, é algo que lhe está a dar cabo da cabeça, ou não fora Homem de trabalho, desde sempre na sua vida. Daqui decorre uma dupla falência, uma mais séria do que a outra, que o braço, esse não volta, ainda que em forma de fantasma, vá ironicamente, dando um ar de sua graça. A cabeça, por sua vez, ainda que mazelada por uma falta considerável, poderá restabelecer, assim esperamos nós. Isto de se perder um membro assume dimensões importantes a nível psicológico. À volta, logo surge quem diga, que morrer teria sido pior, e que a sorte andou por ali, como se isso, na hora da desgraça, desse algum alento a quem se encontra em desespero, e com um braço a menos para se fazer à malfadada vida. A quem não sabe o que diz, julgo que o melhor, será arrumar a boa vontade dentro de algo, e não dizer nada, e isto, a bem de todos, entenda-se, que não tenho particular interesse, pelos silêncios de ninguém. É que essa visão, a do podia ter sido pior, surge muito depois, se surgir, após a interiorização e aceitação, e não a quente, quando o que ainda apetece, é amaldiçoar o mundo e todos os arredores, e ainda quem verbaliza aquelas coisas, sem saber do que fala.
O difícil para mim, parecendo até menosprezo, perante toda a situação, detectar a mim mesma alguma dificuldade, é trabalhar-se a ilusão/desilusão, que anda intercalada, meio perdida, e pouco fundamentada, sendo que alterna alturas em que se julga capaz de tudo, com outras, em que se acha, capaz de nada. Na passada semana, trazia um sorriso nos lábios, porque poderia ser que a prótese, colocada lá para o final deste mês, ainda lhe permitisse conduzir, e assim seguir em frente. Hoje, trazia a tristeza de não conseguir abrir o pacote de açúcar só com uma mão, que neste café, aqui ao lado, o balcão é alto e não lhe dá a preciosa ajuda que o da terra lhe dá, para segurar o pacote com a barriga. Essa coisa, da ajuda, também o confunde. A mulher, dá a que pode, a pobre coitada, enquanto encaminha o negócio, com forças vindas sabemos lá de onde, e lhe atura as noites sem dormir, por força das dores, na costura, e no malvado que desapareceu, e que às vezes parece estar lá, o patife, tivesse ao menos, desaparecido de vez. Com frequência, também ela já dá de si, ou não fora gente.
No final, volta a falar do açúcar e do café, e acho que só ai percebi a dimensão do problema. Ou talvez esteja pelo menos perto.

2 comentários:

  1. Que tenhas força para ajudares todas as pessoas que precisam de "ver" novamente o caminho...
    ;)

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  2. o tipo de história que faz os nossos problemas parecer ínfimos.

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