domingo, 1 de agosto de 2010

Vizinhanças

Na noite, que nem foi de insónia, as séries do costume, mais coisa menos coisa, que não varia muito. Entre umas de hospitais onde nasce e morre gente, numa provocação extrema à minha capacidade de resistência à emoção fácil, e as de investigação, mais ligeiras e menos lamechas, vai-se a noite, devagarinho, que é como se quer. No amontoado de prédios onde vivo, entre gentes que nem se dão a conhecer, tenho cada vez mais a sensação de gaveta, como se o facto de viverem mesmo acima ou abaixo da minha cabeça, e de eu lhes ouvir a torneira, quando o corpo vai a banhos, nada fossem. Ouve-se, nada se vê. Uma entrada na vida alheia um tanto ou quanto estranha, apenas e só com o sentido auditivo, que de resto, nem se pormenoriza muito, deixando-nos sempre a dúvida quanto ao concreto do que se ouve, permitindo até a imaginação. Ali numa gaveta mais ao lado, mora ela, uma das vizinhas, mais ou menos conhecida. Que nessa noite, essa em que eu assistia à televisão no calor da minha sala de verão, teve uma noite afligida, e eu que nem dei por isso. Podia até ter sido de valor, podia até ser, que a minha proximidade, ou a de qualquer outro alguém, a livrasse de algo, mas nada disso, que a proximidade física existe, mas com a devida arrumação, por forma a preservar ou quase a intimidade alheia, que também faço questão de resguardar, obviamente. Ambiguidades, por certo. Ainda assim, existem intimidades estranhas, que nem se deveriam dar ao nome, e a essas, nem sei que lhes chame, que não encontro cabimento. Crime público ou não continua a ser um conceito estranho. Como estranhas são as gentes que me circundam de perto. Como estranhas as gavetas onde moramos.

1 comentário:

  1. Nesta minha gaveta vivo confortavelmente sabendo que o que me rodeia é alheio, é frio e disperso. O que me vale é que durmo serenamente e em paz sem perceber ao certo o que existe para lá deste meu canto.

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