domingo, 24 de abril de 2011

Das palavras

Chegas-te ao amanhecer. O dia, no lusco fusco da aurora, ainda nem bem tinha nascido, mas tu, impaciente, deixaste a espera e vieste, quase como se, e se a tal agrura te sujeitasses, pudesses desfalecer em desespero, que cada hora, cada minuto ou segundo, pareciam uma vida durar. Nos teus olhos, muito pequenos e expressivos, li umas tantas coisas que nem me querias dizer, tal qual como se as letras por eles passassem, e me construíssem frases certinhas, arrumadas umas nas outras, num sentido de crença tal, que bem podia tua boca dizer-me o contrário, utilizando para isso todas as palavras do mundo, que nunca os desmentiria, a pobre. Julga-los fracos, bem sei. Julgas ainda as palavras fortes, como se as verdadeiras, as que te saem da boca proferidas a intento, fossem muito mais poderosas do que as outras, que te escapam dos poros, quer tu queiras, quer não queiras, e mesmo que as arrumes com força, julgando por isso que as negas. Ignorância essa, à qual nos sujeitamos por vezes. Pudéssemos nós controlar o que nem dizemos, pudéssemos nós engendrar em nosso corpo tamanhos segredos, e constituiríamos um poço sem fundo e sem fim, onde o acesso estaria vedado à envolta com umas chaves tamanhas, entrouxadas num cadeado. Nada disso temos, se é que nem sabes. Dispomos talvez de algum aconchego, um arrumo interno que resguardamos em jeito de rigor, mas que vai-se a ver, e se esbanja de dentro, como um luz que nos sai de uma fresta, que poderemos tentar tapar, mas que não conseguiremos nunca expulsar totalmente.
Nem sei se muito se pouco tempo, que a relatividade das horas, é coisa para me turvar as ideias. Mas falas-te numa imensidão sem tamanho, coisas certas e com muito sentido. O teu corpo, pobre de ti, disse-me tudo às avessas.

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