sexta-feira, 22 de abril de 2011

Do entremeio...

Tenho alturas em que os encaixo, outras porém, em que me apetece fugir-lhe até à exaustão, quase numa afronta, diria até, eu que nem sou dessas coisas. A carne hoje não se pode comer. As flores, levam-se na penumbra e enfeitam as campas, mesmo as que no resto do ano se deixam entregues, apenas e só, ao frio do mármore que as abraça. As velas, ainda que ténues, arrumam-se em potes vermelhos que as cobrem, e dão uma luz que ilumina os mortos, que nesta noite, especial, devem carecer dela como em nenhuma outra. No Domingo, como no dia 25 de um mês de Dezembro próximo, ido ou futuro, almoça-se em família, quase aguardando este pretexto, como se outros, nem fossem dias dignos de o serem, e o calendário nos ditasse o que fazer, num mando e desmando poderoso como só ele sabe ser. Nem que as julgue impróprias, que vai-se a ver e necessitamos delas, que ao senão já as teríamos banido de vez, e nos teríamos encaixado nos dias sob nossa própria vontade, sem data disto ou daquilo, incorrendo, quiçá, numa monotonia exacerbada e completamente intransponível. Ainda para mais, muitos destes, trazem de arrasto um descanso merecido, que se fica em casa, acorda-se tarde, bebe-se café amargo e comem-se torradas quentes, enquanto se escuta música de fundo e se olha os pássaros na varanda. Mas poderíamos nós aproveitar os outros, era isso, que também podem constituir pretexto não raras vezes esquecido, para unir ao almoço só porque apetece. Dispensar-se-iam amêndoas e rabanadas, claro, que nos alimentaríamos de laços, capazes de nos fazer as vezes da calda de açúcar. O vinho, poderia vir moderado, tinto, forte e encorpado, decantado a rigor por quem a tal preceito se dedicasse. Eu, ficaria na cozinha, e faria um arroz de pato com mel. Chego a julgar, habitar um qualquer mundo estranho, celebrado à hora marcada, com especial valor às datas da vinda e às datas da ida. Nós, que nem bem sabemos, de onde vimos e para onde vamos, e que nos entremeios por cá vivemos.

2 comentários:

  1. Isto de fazer as coisas por calendário é tramado, CF. Mas para não fugir ao ramalhete aqui vai - Boa Páscoa, amialeira ou não :):)

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  2. Olha, eu não ligo nenhuma a isso :) limito-me a aproveitar as folgas que me são tão caras... e, à pala da Páscoa, vou ter duas! Duas! Não é extraordinário?! :):):)

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