terça-feira, 26 de abril de 2011

A taverna

Na taverna, coisa antiga mas ainda existente em diversos escaninhos da verdadeira aldeia portuguesa, os homens bebericam cervejas com tremoços e carapau frito, num acepipe próprio de quem gosta do petisco, mas que nem se aventura em grandes abundâncias. O tempo é de crise bem sei, mas ainda assim, e na hora do pitéu, que até pode ser raro por mor da dita, quem me tira uma ameijoa à bulhão pato regada com branco, tira-me tudo. Mas aceito e entendo quem de outros gostos se mantém, que cada um reserva a si o direito de escolher o que lhe faz lamber os beiços, luzir o olho ou estalar a língua. Poderão até julgar-me imprudente em tal comparação cometer, como se cerveja e tremoço, e ameijoa com vinho, fossem dignos de comparação, coisa que poderei ripostar docemente, que vai-se a ver, e ainda os julgo com razão. O melhor, será pois nem ripostar o que quer que seja, e avançar. Por detrás do balcão de mármore sarapintado a negro, uma mulher magra de cabelo ensebado, atende os homens que se ali chegam numa prontidão de serviçal, e numa simpatia altiva, não vá algum toma-la de abuso e tentar algum dito mais atrevido. Nestas coisas do avio de taverna é necessária alguma prudência, que vai-se a ver e num instante, os homens falam do que nem deveriam, e a pobre ali se fica, envergonhada e entregue à sua sorte, de ser sabedora de vidas alheias com pormenores que dispensava de todo, se tal coisa pudesse. Não pode, que a afastar-se deixaria o balcão sem guarda e atenção, motivo esse mais do que suficiente para que seu patrão a pusesse fora, e a tal luxo não se pode dar. Pelo que todas as manhãs ali ferra às oito em ponto, com a função de servir bem quem dali se abeirar, e abeiram-se muitos, fiquem disso a saber. Enquanto retira tremoços do balde de plástico tapado a água e a sal, abana os cabelos que lhe tapam os olhos com uns sacudires de esgar, deixando transparecer um estado de inquietude interno considerável, mascarado para quase todos. Se pudesse, fugia dali. Atrás de si, lá dentro da cozinha, a filha dos donos vigia-lhe os passos. Chega a jurar que a dita lhos sabe contadinhos, tal a atenção com que a olha fixamente, incumbida da tarefa de aprender como se faz. Alta, muito cheia e possante, tem ar de quem ambiciona aquilo tudo, e o que lhe escapa dos olhos é a inveja da distância que tal sítio lhe apresenta. Um tormento. Ainda não tem idade que chegue, diz-lhe o pai, que a manda apenas ver. Um dia porém vai ter. Todos aqueles olharão apenas e só para ela.

2 comentários:

  1. Tão bom! :):):) Tens conteúdos que dão para um livro de crónicas :) (da pontuação a gente fala quando chegar a altura :):))
    Beijos

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  2. :) Cara Antígona, confesso-me limitada nos pontos :):) Já deve vir de há muito, mas enfim. Espero um dia ultrapassar este meu problema...

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