domingo, 3 de abril de 2011

O porco

Sempre foi assim, quando o porco se estendia na banca de pedra mármore, num ordenamento rigoroso e tradicional, inundado a grandes alguidares de barro envernizado, pintados a riscas de cores. Era previamente lavado, coisa que nem gostava, ou não fosse badalhoco, imediatamente antes de lhe ser espetada uma faca no coração, a fim de por fim aquela vida suja e porca, talvez até fosse castigo divino, que quem assim se chafurda em lama, nem será por certo digno de respeito.

Na desmancha, era-me explicado tim tim, por tim tim, cada órgão do animal, tendo-me sido dito constituir em tudo, semelhanças ao nosso corpo, coisa que confesso, me manifestava enorme desagrado. Comparassem-me com um qualquer elegante cavalo, ou com um potente elefante, e poderia eu ainda julgar em graça, mas com os porcos que urravam, e que corriam desinsofridos atrás das marrãs frescas e gordas, era coisa para me deixar escandalizada. Ainda assim, ouvia com preceito e atenção os ensinamentos, mais por respeito do que por qualquer outra coisa, sendo que vos posso garantir, saber com exactidão a localização da grande maioria dos órgãos do animal, ou seja, quase que sei dos nossos. Aos bocados, era depois levado pelas mãos das mulheres que lhe davam o melhor caminho. Alguma febra era assada logo ali, a fressura e o sangue cozido iam para a panela das sopas, as carnes gordas iam indrominar-se de colorau, para gerarem o chouriço, e por aí fora. Era empreitada para durar uma tarde, escolhida criteriosamente para que toda a família pudesse dispensar braços e mãos, que quantas mais houvessem, melhor a função se cumpria, coisa que por norma, nem constituía dificuldade da séria, que o convite para a festança incluía a patuscada, motivo mais do que suficiente para que a reunião de gentes fosse considerável.

Não mais esqueço o cheiro pestilento que me inundava as narinas, coisa asquerosa, que ocupava o pódio dos meus ódios de matança, logo após os guinchos do animal, que se situavam, como devem calcular, no topo da tabela. Normalmente, escondia-me atrás de um portão verde, e tapava os ouvidos, que julgava eu que se o fizesse, e talvez porque o não visse ou ouvisse, o bicho nem sofreria. De inocência inundada, nem bem entendia que tal coisa, ou seja, o que vulgarmente chamamos de esconder a cabeça na areia, tal como a avestruz, é padrão típico de acção das gentes adultas, e não apenas e só uma mísera forma de defesa infantil, que a usa em receio e em evitamento, num instinto de protecção que se lhe perdoa pela idade. Não detenho portanto em memória, e dada a alta artimanha, a pura atrocidade do momento, que no final de tudo, e mal o porco se finava, o meu corpo sossegava.

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