domingo, 30 de outubro de 2011

Broas



Era hoje, mais dia, menos dia. O forno era aquecido previamente por Gaiata, uma velha que nos vendia peixe fresco todos os dias, vindo directo do mar, dizia ela. Na banca de mármore velho, repousavam de olho ainda vivo, numa inconsonância de sentidos, carapaus, sardinhas, chicharros, xaputas. O forno ficava lá atrás da peixaria, e era rodeado de mesas altas de madeira, onde se tendiam massas e se abençoava pão. São Vicente te acrescente, São João te ponha a mão... O alguidar era de barro riscado a verde alface, e levava dentro uma massa, muito cheirosa e amarela, que eu gostava de lamber. Dali saiam bolinhas pequenas, que se pincelavam posteriormente com ovo, tarefa minha, logo após se depositarem num tabuleiro destinado ao efeito. O forno abria-se, e entravam lá para dentro, para uns minutos depois, saírem em forma de broa de ovo, as minhas favoritas de sempre. Um dia, em passeio por terrenos da velha Gaiata, em tempos de feitura dos bolos, descobri uma pele de cobra dependurada por detrás de uma porta. Julguei-a num instante bruxa, velhaca, má, até porque as vestes condiziam com os livros de histórias que me contavam. Enrolei a pobre numa história sem fim, dentro da minha imaginação fértil de criança. Ganhei coragem e em segredo, perguntei a minha avó, que me contou que a pele era para fazer chá, uma mezinha antiga, tratadora de dores e de males do corpo. Sosseguei. Afinal a velha não matava cobras, apenas lhes apanhava a pele, caída no chão, aquando da muda. Nos entretantos, devo ter comido uma broa doce e quente, dada pelas mãos velhas da minha avó, com o intuito de me acalmar o espírito. Duravam macias muitos dias, cobertas com um pano grosso, e eu comia-as molhadas em leite quente. O chá da cobra, nunca o quis provar.

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