terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pesos

Era hábito o sorriso sair-lhe do rosto. Era pouco frequente a má disposição, que surgia apenas dois ou três dias durante o mês, uma sina que lhe tinham dado à nascença, capaz o suficiente para a inquietar, coisa que nem é bem dela. Nasceu Mulher. Sem saber como, que a vida tem interiores ocultos, muito próprios e inacessíveis para nós, cresceu inundada de uma certa áurea que a mantinha protegida, julgava ela, uma vez que tinha em si reunidas vontades suficientes para dar a volta a todo e qualquer sentimento que tivesse a ousadia de lhe entrar pelo corpo. Os que aproveitava para si, os que lhe davam alegria e bem estar, tentava acolhe-lhos, bem trata-los, acomoda-los, deixa-los entrar sem qualquer tipo de limitação e guarda-los para sempre. Os outros, que também os havia, tratava a todo o custo de expulsar, fosse pela boca, fosse pelos poros, fosse por que sítio fosse. Houve um dia em que porém se estranhou. Lá dentro daquele corpo amarfanhado pelo tempo, começou a encontrar intrusos que não conhecia, bichos pequenos que não conseguia expulsar, e que a fustigavam devagarinho, todos em conjunto, deixando-a num estado de agitação importante. Não percebeu o que se passava, mas tentou a todo o custo descobrir. A pouco e pouco, encontrou perdidos nas entranhas do seu corpo, todos os males que acreditava ter expulsado. Os desgostos, a desavenças, as ingratidões, que tão bem julgava abater, estavam todos ali acomodados, mesmo ao lado das boas causas, numa espera tranquila, discreta, imperceptível. Tinham querido acordar. Como em todas as coisas neste mundo, qualquer que seja o âmbito ou a dimensão, quando a carga se acentua, o peso é mais forte. Temos portanto o uso de dividir tudo em bocadinhos leves, a fim de aligeirar as costas, fracas, limitadas. Por vezes, e num terrível engano, cremos consegui-lo na perfeição.

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