domingo, 2 de outubro de 2011

Cão

No Rossio voam pombos ensandecidos, enquanto no chão, julgando que a grandeza os assola, numa ignorância suprema da qual somos detentores, homens e mulheres espalham milho, para aqueles que, esses sim, são grandes e livres. Ela fica a olhar os pássaros, numa inveja real e forte, nada de um sentimento brando e passageiro, surgido no meio do nada, e por nada ser. Lembra logo ter lido Fernão Capelo Gaivota, uma das obras da sua vida, a par e passo com outras que lhe trazem grandes ensinamentos. Nem são muitas, são algumas, e são para sempre, frase que usa com cuidado e parcimónia, mas que aqui coloca com toda a tranquilidade. Para sempre. Para sempre. Olha por ali um bocado, com uns olhos atentos e abertos o suficiente, para perceber que naquele naco de Mundo, se encontram reunidas as condições para que realmente percebamos a nossa pequenez, perante uma série de cenários miseráveis, entre os quais o mendigo que se embrulha numa manta coberta de pelos de cão, seu fiel companheiro de todas as horas. Ambos, dono e cão, miram a dádiva do milho, com uns olhos estranhos, como se não pertencessem ali. Mas pertencem, só não são vistos. E olham sempre na mesma direcção. Continua e sobe o Chiado. Chegou a ter-lhe saudades, aquando do seu desaparecimento, na sequência do terrível incêndio que nos levou uma dos mais belos lugares de Lisboa. De um lado e do outro, encontra lojas recheadas de coisas bonitas, daquelas que toda a gente apraz pôr, porque vai parecer bem. Parecer bem é uma coisa muito boa. Lá no cimo, bem perto da igreja, um outro homem sentado e amarrotado dorme. Na envolta, tudo gira, e ninguém o vê, mas ele pertence ali. O mundo é um local estranho, povoado de gente que é vista, e de gente que ninguém vê. Este homem, não tinha cão. Deixou-lhe pena, e inflamou-lhe o sentido da desgraça. Quem tem um cão tem muita coisa. Quem o não tem, nem chega a saber o que lhe falta.

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