domingo, 9 de outubro de 2011

Constatações

Tenho o estranho hábito de viver na reserva. Não uma reserva social, de ausência ou de afastamento, posso até dizer, sem qualquer fuga à verdade, e para a quem isso possa interessar, que sou extremamente sociável. Sempre fui. Desde pequena, e ainda na aldeia, sempre me dei a toda a gente, desde os colegas de escola, às velhas que ordenhavam vacas, e às quais eu levava o balde de alumínio, seguro com força pela asa de arame e madeira, sob as minhas mãos magras e frágeis. Todas gostavam de mim, e eu garanto-vos que gostava delas, e daquele cheiro entre o azedo e o adocicado, que lhes emanava do rosto, do corpo, da roupa. Gostava também muito de toda a vizinhança, tendo sido adoptada dias infinitos, por algumas das solteironas do lugar, que me levavam em passeios formidáveis, que muito me agradavam. Nunca fui género acanhada, reservada, fugidia. Fui crescendo, mantendo a atitude, e hoje continuo igual, mas pode até parecer que não. Simplesmente porque agora, e enquanto adulta, vivo mais para dentro, um tanto ou quanto mais resguardada. Porque existem coisas que não me apetece partilhar. Isto começou há tempos, quando comecei a perceber que o mundo é um sítio cruel e relativo. Cruel nas gentes, relativo na essência. O que quero dizer, e para que me faça entender, é mais ou menos o seguinte; as pessoas, na sua generalidade, são um tanto ou quanto egoístas. Aproximam-se por vezes, para noutras se afastarem, normalmente, de acordo com as necessidades. Encontro excepções, claro, que me confirmam a regra, mas não tantas quanto as que eu gostaria. Esta reserva, para os que me lêem, e logo após esta minha explicação, entrará por certo no âmbito da minha auto protecção, mas não creio nisso. Centra-se essencialmente, na relatividade da qual também falei. Já encarei a dubiedade do ser humano e do mundo. O que agora se verifica, daqui a pouco já não. Naturalmente. Não constitui portanto uma protecção, mas uma simples constatação de fenómenos.

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