quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mãos

Ainda me lembro de a ver a lavar cabeças, uma das quais a minha, quando eu me aventurava ao Salão da Cidália, coisa rara, exercida apenas nos momentos de maior precisão. Nunca fui muito dada a essas coisas, falta-me o tempo, a paciência, ou talvez arranje sempre algo mais interessante para fazer. Tinha uns cabelos compridos e pretos, e saia sempre mais ou menos à mesma hora, na direcção da pastelaria da esquina, que dentro, numa mesa redonda, muito pequena e sem graça, tinha um homem que a esperava. Pedia um café e ali ficava por uns quinze minutos, enquanto recebia do amor da sua vida umas festas no cabelo, que ironicamente, tinha um ar de desprezo notável. Ambos sorriam. Soube-lhe entretanto do casamento, que nos pequenos sítios do mundo, mortes e uniões são partilhas do povo, dificilmente passíveis de se darem na descrição. Surgiram-lhe os filhos, e hoje é padeira na padaria da esquina. Mantém o mesmo cabelo, o mesmo corpo, acentuou-se-lhe o ar cansado, desapareceu a esperança. O marido frequenta agora, de quando em vez, o sítio onde trabalha, mas ela não se senta, não pode fazê-lo. Por vezes, ele espera-a na entrada da porta, daquelas modernas, que abrem automaticamente, e seguem os dois, sem qualquer contacto ou cumprimento. Os pequenos saltitam na frente, enquanto o olhar vigilante dos pais se centra neles. São a alegria das suas vidas. O resto, os risos, os toques, parecem ter ficado esquecidos, imersos num tempo distante, quiçá já perdido. No outro dia, juro que o vi tentar dar-lhe a mão. No exacto momento em que ela levanta a dela, e sacode o cabelo.

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