terça-feira, 21 de agosto de 2012

Anna Ó

Dias destes, férias que escasseiam de ano para ano, isto para não falar dos subsídios, e eis que me encontro debruçada sobre textos de trabalho que tenho mesmo de ler. Uma parte do dia considerável, que o resto é destinado a dar asas a alguém que gosta de rua e de bola tanto quanto eu, ou melhor mais do que eu, que gosto de rua mas de bola nem por isso. Ontem fui-me deliciando à medida que as leituras me passavam pelo corpo, resolvi até permitir-me uma almofada grande e macia onde me recostei nas horas quentes do dia para que o trabalho me soubesse a deleite. Divaguei por obras que conseguiram enquadrar-me e muito bem no assunto sob o qual trabalho, e eis que a meio das leituras, e um tanto ou quanto desenquadrado do tema em questão, me surge Breuer, que em 1881 se encontrou com Anna Ó. Confesso que muito embora tivesse lido sobre ela em tempos de faculdade, a mesma já se me tinha esvaído das memórias, quiçá abafada por outras teorias mais prementes, mais entendíveis e mais pragmáticas.
Hoje, as teorias da psicanálise fazem-me todo o sentido. Entregam-me e transportam-me para meandros que me permitem compreender diversos comportamentos que enquadrados em outras correntes parecem-me pouco justificáveis. Esta entrega não me vem de sempre, devo dizê-lo, que nos primórdios do meu trabalho considerava as teorias mais rebuscadas do inconsciente um terreno demasiado complexo para que eu entrasse nele sem medos, saber-se-ia lá o que poderia encontrar, ou os reflexos que tal afoite teria nas minhas próprias acções e comportamentos. Não obstante gostava delas. Sentia-lhe o cheiro intenso e tentador, o toque ao de leve a tentar entrar-me no corpo, mas guardava-lhe sempre uma qualquer distância de segurança que me permitisse viver tranquila apesar do meu interior, demasiado interno até para mim mesma.
Com o tempo isto passou. Quem sabe se a ver com a minha curiosidade mórbida, quem sabe se a ver com a minha necessidade de compreender determinadas coisas que não têm explicação de outra forma, quem sabe se apenas porque agora já não lhes consigo fugir.
Continuando. Anna Ó tinha sido abafada algures dentro de mim, mas a verdade é que tal abafamento não foi suficiente para matá-la, sendo que me bastou o nome da  criatura para que a mesma emergisse de novo, histérica, novinha, inteligente, carente ao ponto de Breuer se sentir impelido não só a curá-la, mas também a protegê-la, uma das terríveis doenças que podem emergir em contexto de consultório. Apresentava manifestações físicas do fenómeno histérico, que lhe nasceram do processo de acompanhamento à morte do pai, por quem detinha um sentimento profundo. Breuer descobriu que cada um dos sintomas da histeria manifesta estavam ligados a um determinado acontecimento especifico que era preciso trabalhar, a fim de expurgar a mente através de técnicas de Hipnose.
Muito embora o assunto tenha sido abordado inicialmente por Breuer, foi Freud que lhe deu seguimento, até porque a paixão entretanto acesa entre o psicanalista e Anna Ó limitaram o decurso dos trabalhos. Sigmund Freud continuou a utilizar a hipnose como forma de conseguir entrar nos meandros do inconsciente, e no seguimento dos seus trabalhos começou a perceber que muitos dos distúrbios neuróticos que encontrava tinham origem em experiências traumáticas de infância, muitas delas de cariz sexual, e não só dos episódios mais recentes de provação de resistência interna. Apesar de considerar a hipnose um método bastante eficaz na busca do inconsciente, Freud partiu posteriormente para a associação livre, um método mais simples que permitia resultados muito satisfatórios, segundo o próprio.

Não pretendendo aqui dar lições de psicanálise, porque não acredito que possam interessar a muita gente, e ainda porque não tenho competência para tal,  não me vou alongar no texto explicativo, centrando-me por fim um pouco na associação livre, por considerá-lo um método de elevadíssimo interesse. É um exercício de indiscutível utilidade ao qual todos nos poderemos entregar frequentemente, sem qualquer tipo de custo ou de esforço. Basta que se descontraiam e que vão trazendo ao pensamento o que vos aprouver, e no seguimento das vossas ideias, para posteriormente tentarem perceber a ligação existente entre os factos diversos que vos constituem, e ainda entre as vossas acções. É claro que uma ajuda externa é essencial para um trabalho aprofundado da mente de cada um, mas não deixa no entanto de ser interessante as ligações que fazemos nós próprios connosco mesmos, acentuadas ainda se conseguirmos diminuir ao mínimo a censura. Experimentem, aproveitem o relaxe e o fresco das noites longas. Vão ver que na penumbra, e ao cheirarem a flor do vaso, vão sentir estremecer uma estrela no céu. Não há nada melhor do que a intimidade da vida.


2 comentários:

  1. Interessante...

    às vezes me pego hipnotizado por uma ideia, ela me domina e cria arquétipos poéticos dentro de mim e só me liberta quando a ponho no papel.

    Adorável e esclarecedor seu post.

    Ótimo final de tarde para você!

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  2. :) Will, ainda bem que achou esclarecedor. Também a mim pôr no papel me esclarece muitas vezes...

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