segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Teoria da avestruz

Havia dias em que se sentia estranha. Já tinha lido nos livros que o inconsciente pode trazer estas coisas, mas uma coisa é ler outra coisa é dar corpo. Dar corpo é sempre uma diferente sensação, as coisas entram não sabemos por onde, alojam-se em locais que não queremos, e depois disso é viver com elas a escorrer no sangue, a saltar das lágrimas e a transpirar dos poros, com urgência de vazão. O inconsciente pode mesmo trazer destas coisas. O conceito proposto por Carl Jung introduz sobre a teoria de Freud um conceito de pré-consciente que seria o conjunto de processos psíquicos latentes, prontos a emergirem para se tornarem objectos da consciência.  Já o inconsciente seria então uma esfera profunda e ainda mais insondável que todos temos cá dentro. Voltamos à dádiva do corpo. Dar corpo às coisas é trazê-las cá para fora. Pode ser fácil ou pode ser difícil, pode vir a vontade ou em expulsão, depende do contexto e da estrutura mental. Trazer à consciência determinadas coisas requer sempre algum trabalho. Interno, por vezes externo, se o nosso eu se sentir afrontado com o que se avizinha em termos de sentimento. Nessas alturas temos por hábito recuar e recalcar para dentro o que nos perturba, porque nem tudo é facilmente suportável. Há muitas coisas dificilmente suportáveis, a realidade é mesmo essa, mas não deveríamos por isso deixar de senti-las. Quanto mais depressa lhes dermos corpo, mais depressa conseguiremos aprender a vivê-las, uma vez que nunca é possível eliminar de todo o que quer que seja que nos atravesse. O nosso reajuste quotidiano pode depender disso, bem como a reinserção na vida e em nós mesmos. Claramente que pressupõe um momento merecedor de preparação prévia, que se não for respeitado pode trazer riscos acrescidos de descompensação séria. E é aqui que entra alguma sensibilidade importante, e em caso de intervenção externa, uma vez que nunca podemos medir o outro verdadeiramente, nem consciencializar efectivamente em que degrau se encontra situado. Há um risco de erro por mínimo que seja, e se ele ocorrer poderemos ter necessidade de remediação adequada. Devido a isto é sempre com algum cuidado que entro nos mundos alheios, e por vezes até nos meus, que por próprios que sejam são territórios internos. Prefiro concentrar-me no pré-consciente, é um terreno muito menos perigoso e de fácil gestão, muito embora por vezes não baste. Não basta porque a nossa mente tem de facto locais obscuros, quiçá vividos, quiçá esquecidos, quiçá apenas ambicionados. Nesses locais, dúbios, censurados, somos o que não queremos, sentimos o devido e o indevido, poderemos até ser doentes no sentido de não normalidade. E não, não é boa a sensação, sei disso de fonte segura. Mas também sei de fonte segura que não ir lá não apaga nada do que lá está.  Mais ou menos como a teoria da avestruz, uma das mais perfeitas de todos os tempos. 


4 comentários:

  1. Ai...de repente pensei: esta rapariga anda a ler-me os pensamentos! mas depois pensei que o mais certo é andarmos mais ou menos na mesma onda. Uma coisa é certa, dava-me um jeitão alguém que mos ajudasse a ler :):)

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  2. Antígona, como sabes, temos isso combinado :):)

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  3. O divã, digo a chaise longue, fica por minha conta. Já os ouvidos, a meio, trocamos...? :)

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