domingo, 5 de agosto de 2012

Festas

Agora aqui à volta as pessoas dançam. Reúnem-se em grupos ao redor de mesas com toalhas brancas ou de quadradinhos, comem, bebem, e fazem a festa. Agosto é o mês indicado para que isto se faça. Quem vem de fora gosta de sentir o calor de Agosto e a amabilidade com que as gentes os recebem de volta. Deve ser bom este regresso a casa, de algumas vidas que se guardam para viver no verão, muito embora este facto me cause algum desconforto. As vidas devem viver-se sempre, e conseguir esse feito não é para todos, muito embora haja quem o consiga fazer. Um privilégio, não haja dúvida. Agosto é também um mês quente e com dias longos. Os dias longos mingam a noite escura e permitem relentos doces e agradáveis. Em tempos lá na Aldeia também se dançava, comiam-se fios de pinhão e ouvia-se a banda da música. Ainda me lembro. Lembro-me do João, um moço alto e viçoso que tocava saxofone enquanto olhava para mim e sorria muito, mas de um tempo a esta parte não sei o que lhe aconteceu. Lembro-me também de um conjunto de roupa às riscas que a minha mãe me comprou para eu levar à procissão, eu era festeira e deveria por isso ir composta. Tinha uma saia e uma camisa com uns bolsos em forma de cone a lembrar um gelado, e foi comprado algures numa barraca da feira de Santarém. A senhora garantiu que era da máxima qualidade. Ainda me lembro também de o vestir pela primeira vez, ao Domingo, e de me mirar ao espelho durante muito tempo, já um pronúncio de vaidade que só cresceu com o tempo. Nesse mesmo dia, à noite, a prima Ângela dançava e namoricava livremente no baile, enquanto as velhas teciam comentários diversos sobre o futuro da rapariga. Ter trinta e não ter noivo era um sério problema, a carecer de urgente solução. São giras as nossas memórias, perco-me com elas. Não nos surgem vindas do nada, têm implícito um critério rigoroso sobre o qual nem pensamos por vezes. Parecem mortas e enterradas mas de repente voltam a nascer como se sempre tivessem estado vivas dentro de nós, o que não deixa de ser uma verdade. Podem emergir de um sussurro, de uma coisa que cheiramos, de uma pessoas que vemos. E é ai que voltamos. A viver, a cheirar, a ver, a tocar. Porque para tocar e ao contrário do que muitos julgam, não são precisas mãos, são precisas vontades. Eu por exemplo, consigo tocar em muitas coisas ou pessoas que já se foram apenas com o meu coração. Há outras nas quais não me apetece pôr o corpo e por isso deixo-as mais ao lado. Passam por mim assim como que uma névoa, fugazmente, mesmo que algum chamariz as atice em insistência. Não gosto muito que interfiram com as minhas memórias. Não aprecio que me mandem esquecer o que me construiu, e que guardo ou não guardo, depende de mim. Por isso nunca permito que me digam esquece isto ou esquece aquilo. É uma ordem egoísta e profundamente ignorante. Quem sabe qualquer coisa, ainda que pouca, de gente e de pessoas sabe o quanto essas palavras são vãs e impróprias. Vãs porque não podem ser obedecidas apenas porque algum agente externo o pretende, impróprias porque indicam um caminho triste e sinuoso. Não posso nunca esquecer as minhas memórias, pelo menos as significativas, sejam elas boas sejam elas más. Morro de medo de perdê-las, arrisco dizer, e há muito que peço a Deus que em caso algum mas leve com ele. Nesse dia, e se ele chegar, toda eu morro com elas. E morrer em vida não é de todo a morte com que sonho para mim.

4 comentários:

  1. É um dos meus maiores, se não o maior, terror. Quando morrer quero levar comigo tudo o que vivi. Não quero ir em branco como se nunca tivesse chegado a nascer.

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  2. Uma catástrofe, de certo. Uma vida em branco, deverá ser mesmo isso...

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  3. Não é à toa que quanto mais avançamos na idade, mais vivas e claras emergem as memórias da juventude e extrema infância. Penso eu, que eu cá sou novinho e não me lembro de nadica :)

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  4. Pois, imagino que não lembres. A seu tempo, a seu tempo :):) Eu por cá, e de facto cada vez mais, socorro-me delas. Umas vezes sem pretexto, outras claramente para compreender coisas. Que podem ser mais ou menos banais, nem importa. São coisas. Minhas...

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