domingo, 26 de agosto de 2012

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Estava calor. No alto da cabeça o cabelo enrolava-se nuns caracóis eriçados, a ver se o corpo respirava. Ele olhava-a com uns olhos verdes enraivecidos capazes de matar. Os olhos podem matar, munem-se de umas facas afiadas que nos golpeiam por dentro em sítios escondidos e apenas sentidos, mas que ficam mortos de morte matada. Atira ainda em arremesso e como se não bastasse o restante, a fúrias das palavras acesas. Gesticula enquanto compõe os olhos e aos ditos em ataque directo, que não são mais do que defesa declarada, mal compreendida. São assim os que pretendem repor ordem num mundo que os aflige, onde os outros são alvo de repressão porque não estão à altura, quando por vezes a dita falta a quem tanto esbraceja. Fico a olhar meio ao longe e concluo que por vezes vacilo perante a loucura (?). Não devia, sustenta-me, ainda que um tanto ou quanto esquisita. No conceito de normalidade poderá ser uma excepção, no sentido clínico uma patologia, mas quanto a mim contempla ainda os rasgos de malvadez. Gostaria de conseguir encaixá-la em outros meandros, aceitaria facilmente os loucos, se os houver, e encontraria uma outra categoria que suportasse os maus de espírito. Não me é fácil porém esta singela divisão, não consigo encarar a maldade como uma realidade isenta de contexto, pura e dura, sem dó nem piedade, e por isso encosto-a onde a consigo, ainda que minimamente, conceber. E fico a deambular numa dúvida que os perdoa a todos, serão eventualmente loucos, serão? A aceitá-la nua e crua viveria num mundo pior, dentro de um já suficientemente mau. De resto e quanto à existência, deixemos a loucura em aberto, ao critério de cada qual. A maldade, essa, sozinha ou acompanhada existe de todo. Vê-se, sente-se, cheira-se e engasga-nos o corpo quando nos entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelo peito e pela pele. 

( No dia em que eu deixar de aceitar a loucura deixo de acreditar. A loucura existe, claro que existe, e nela cabem muitas coisas, boas ou más. A loucura está para o Homem como o mito está para a existência. Lá compreendemos tudo o que não se explica de forma concreta.)

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