terça-feira, 28 de agosto de 2012

Arroz doce




Há caracóis, pode ler-se na porta. Não apresenta erros de ortografia como aqueles que povoam os facebooks ou o Gosto Disto, é um há caracóis simples e correcto. Há também cerveja, tremoço, camarão, ameijoa e outros acepipes, uns da terra, outros do mar, outros ainda fabricados pelas mãos do Homem que afinal ainda cria coisas boas. Não havia arroz doce. Não percebo, fiquei estupefacta com a inexistência de arroz doce num tasco daquele calibre, de onde se esperam açordas, pães caseiros, caldeiradas e ensopados, chouriços e fritadas, farófias e claro, arroz doce. Há coisas que pertencem a determinados lugares, mas existem outras que pertencem a todos os locais, ou a muitos vá, e o arroz doce é dessas coisas. A verdade é que não concebo sítio que se preze sem arroz doce. O arroz doce é uma doçura de coisa composta por arroz, açúcar e leite, entre outros ingredientes que podem fazer enriquecer o prato. A canela com que se desenham risquinhas por cima é indispensável à finalização, e o tachinho de barro dá-lhe algum encanto dispensável, se o paladar compensar (mas só se for muito). 
Houve uma vez, já muito distante, em que eu e outra pessoa comemos muitos pratos de arroz doce numa noite de final de ano. Ele verdadeiramente incomodado pela insistência da gula que não lhe abandonava o ser, já cansado da noite e do ano que findava. Deixa, come, dizia-lhe eu, que sempre gostei de ver gente que come sem medo, com gosto e vontade, depositando no acto toda a gana que reúne no corpo e que emerge transparente na boca, nas mãos, nas expressões de satisfação e nos murmúrios deliciados que nascem enquanto se saboreiam aqueles pitéus que estão a saber-nos pela vida. É bom quando as coisas nos sabem pela vida, basicamente é isto. Já pela madrugada, e perante os olhares espantados do restante grupo que não compreendeu de todo o que ali se passava, restávamos nós, começando um novo ano de forma gulosa, voraz, apetitosa, sem qualquer tipo de enjoo ou aborrecimento. Para mim o arroz doce nunca será aborrecido.  E um ano novo também não. 

6 comentários:

  1. Gostei! O arroz doce faz parte do nosso património cultural e emocional.

    ResponderEliminar
  2. Teresa, claro que faz. É de uma simplicidade enorme e tão perfeito que até dói... Para mim, claro, e para si, parece-me que também :)

    ResponderEliminar
  3. E o arroz doce será sempre povoado de língua portuguesa :)

    ResponderEliminar

Deixar um sorriso...

Seguidores