quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Porta

Olhou para a frente e coçou no queixo. Coçar no queixo é aquele gesto do qual se apropriou em tempos e que revela concentração. Pensamento, desejo interior com todas as curvas, todos os cortes, todas as arestas, todas as concavidades e todos os relevos que deverão nascer em cada idealização da mente. A imaginação do que ia construir foi ganhando forma. Começaria do lado esquerdo até ao centro, e terminaria do lado direito, mesmo colado à casa. Teria mais ou menos dois metros de altura. Seria colado a cimento feito com força de braços e deveria ser construido em dois ou três dias, era o quanto bastava. As pedras já estavam empilhadas num monte significativo mesmo ali ao lado, disponíveis para que lhe pegassem e as usassem no propósito estabelecido. Nesse mesmo dia deitou mãos à obra. Gostava sempre de obras iniciadas, ainda que não conseguisse saber à partida os resultados. Dava-lhe uma gana de vida o que lhe nascia das mãos, do intento, da vontade, e que se traduzia em projectos seus quer terminassem quer ficassem reduzidos a algo inacabado, que mesmo assim eram pertença sua. Ainda para mais porque término é qualquer coisa de relativo. Até hoje nunca terminou a casota do cão, só para que percebam, que já quase se concluiu dezenas de vezes para depois necessitar sempre de mais qualquer coisa, tendo já havido até o dia, em que de tão completa, necessitava mas era de arranjo, que o que se usa e abusa carece de manutenção.
Aquele muro poderia constituir uma obra dessa envergadura, tinha consciência disso. Um muro, e ainda que não pareça, poderá sempre ser um inicio ou o motivo de qualquer coisa; uma separação, um suporte para um estendal, obviamente um préstimo doméstico, um sítio onde nos sentamos à noite para ver e ouvir a lua, isto entre muitas outras serventias que agora nem me ocorrem, mas que por certo existirão.
Colocou a primeira pedra. Pincelou-a com jeito e sabedoria por cima, e colocou outra, respeitando a ordem a que se tinha comprometido. Seguiu de carreirinha junto ao chão, para depois se concentrar no inicio da elevação, que se foi dando a seu tempo, exactamente como tinha planeado. Ainda a empreitada ia a meio, e já dentro da sua cabeça nasciam novas ornamentações, novos projectos, novas formas de encarar aquela parede que lhe nascia das mãos, e que parecia impor-lhe um desafio.
Aquele muro de facto guardava-o por dentro e por fora, mas e se de repente fosse preciso saltá-lo? Coçou no queixo. Enrolou a barbicha entre os dedos e pensou que o melhor seria construir uma porta, um local por onde conseguisse passar situado exactamente no meio da fortaleza que criava com as suas mãos. Para isso, precisou de partir e remendar, pelo que partiu e remendou. Colocou a porta, abriu-a, e experimentou passar para o outro lado. Era exactamente aquilo que estava em falta para que a obra ficasse perfeita, sentiu. Não sabe como não se lembrou disso mais cedo. Uma porta. Nada deverá existir sem uma porta no meio.

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