quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Espelhos

Um espelho. Um espelho é o que muitas das vezes precisamos para ter consciência real dos nossos actos, das nossas acções, dos movimentos e comportamentos que nos nascem no corpo. Eu sempre soube disso, já em pequena dançava horas ao espelho do quarto dos meus avós enquanto ouvia música popular portuguesa no leitor de cassetes. No final carregava no botão rec e voltava a carregar no play, para ouvir de novo músicas que me faziam abanicar o corpo, primeiro sem jeito, para depois, e à medida que o treino e o espelho faziam o efeito pretendido, ganhar alguma graça e harmonia. Lembro-me perfeitamente de deixar de fazer caretas ao som da música, uma das coisas que abalava por completo a elegância da minha dança, e de começar a mexer os braços ao ritmo do som em vez de os abanar de forma descoordenada e sem sentido, ou de os manter quietos junto ao corpo sem qualquer movimento. Tudo pequenos ajustes que se revelaram ao longo de tardes de verão infinitas, daquelas em que o calor abafa para deixar as crianças presas em casa, altura em que pela força do vazio sempre se encontra o que fazer. As teorias comportamentais, descobri isso muito tempo depois, e nas suas estratégias de intervenção, ensinam a usar o espelho para controlar comportamentos. Uma mais valia que encontro nesta corrente, que aguça este meu devaneio eterno de não me concentrar em nenhuma visão circunscrita, quanto toca a encarar o nosso desenvolvimento. Não tenho poiso certo, tem de dizer-se, sou uma Maria vai com todos, um marinheiro sem porto, alguém que se socorre do que lhe faz sentido e quando lhe dá mais jeito, o que origina a que me entregue inteira à psicanálise quando isso me parece bem, me encoste ao modelo dialógico que bebo com uma voracidade inigualável quando me apetece, deixando ainda os comportamentalistas regerem-me por vezes, em pequenos detalhes que me fazem todo o sentido. A técnica do espelho é de facto uma ajuda preciosa em determinados tipos de comportamentos que cometemos por não vermos o resultado em nós próprios. Aproveitá-la para o que de bom nos possa trazer é um acto de inteligência puro. Os olhos dos outros, e apesar de bons espelhos, estarão sempre aquém dos nossos, os únicos realmente isentos, sinceros, vividos e sentidos, sem torvamentos, sem parcialidades, sem desonestidades ou outro tipo de contaminações que não as próprias. 

( O espelho interno, esse, continua a faltar-nos verdadeiramente. Tento inúmeras vezes fazê-lo com quem me procura. Salto do meu corpo logo que posso, expulso crenças, convicções, estados de espírito e sentimentos, e aposso-me de tudo o que consigo de quem se encontra à minha frente. Depois disso despejo-lhe devarinho o que retirei da sua realidade, a ver se ele sente, se a vê, se a percebe e a interioriza. Corre mal. Corre sempre mal. Até hoje nunca consegui estar à altura, acho até que não chego perto. Fico perdida algures no meio do caminho, consciente de que por avanços que faça ficarei sempre muito longe do destino pretendido.)

2 comentários:

  1. Não sei… Não te esqueças que a imagem reflectida pelo espelho é inversa à nossa e, mesmo que não fosse, não reflecte o que somos, mas o que vemos ou queremos ver.

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  2. Claro Paulo, dai eu referir a ausência de contaminações a não ser as nossas. Ainda assim precisamos dela, ajuda-nos, molda-nos. Tanto quanto dos olhos dos outros. Somos individuais e sociais; não sei, a mim faz-me algum sentido...

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