sexta-feira, 31 de agosto de 2012

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Descobri entretanto que escreve poesia. Deixa-se esvair por entre uma bic normalíssima de plástico transparente, como se toda a sua vida pudesse ser escrita assim, através de um pedaço de plástico vulgar e  inconspícuo, desprovido de porte e elegância. Ela insiste. Gosta especialmente da ligeireza da escrita, da presteza com que as letras lhe saem dos dedos e se juntam para formar arte pura, vivida dentro do corpo e em mais lugar nenhum, o único local onde existe o poeta. O resto, de fora, são meros ensaios de interpretação. Ela nunca tinha descoberto o seu valor. Nunca tinha julgado que dentro do si fosse possível criar uma vida para além do fáctico que lhe transparece bela para as mãos, ao mundo que a descobre. Os poetas são as pessoas mais afoitas deste mundo. Ousam invadir a metafísica das coisas, da existência e dos próprios, e deixam que lhe saia à descarada por entre os sulcos do corpo, liberta e direccionada a tudo e a nada, acessível apenas a quem se desapegue do pragmatismo da vida. Aí nascem novas ideações de quem recebe beleza, sempre susceptíveis de variação, totalmente sujeita ao sujeito que sente, como em tudo. Desenrolam-se então visões diversas, transforma-se vida em fascínio, único, muito individual. Apaixona-me tanto a individualidade das coisas. Quanto à poesia, depende. As dela, falam do que eu sei, outras há que falarão do que me é estranho, e que poderei ousar perceber, ora em vão, ora não. Muitas, na generalidade falam de amor, uma linguagem eventualmente inacessível a alguns, ambicionada por toda a gente. O amor fica sempre bonito no retrato da poesia.   

2 comentários:

  1. O poeta, mais do que um fingidor, é um autêntico inconsciente. E, ademais, ingénuo… e louco.

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  2. Sim Paulo, louco... Cria beleza arte há dor, deixa-se esvair sem limites. Uma loucura, para além de afoiteza, claro que sim...

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